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domingo, 26 de dezembro de 2010

NO ANO 3000

 .
No ano 3000
aquele burro triste do prado verde
aquele burro pardo preso ao círculo verde
da corda antiquíssima
enfim    virá nas patas livres
percorrendo o prado imenso
.
No ano 3000
na minha rua
a relva tenra de entre as pedras florescendo
cobrirá especiosa em manto verde
as pedras variadas que hoje piso
.
No ano 3000
no sol     a máquina dos átomos   
..estável  
….consciente
apenas pulsará no éter do sistema
as partículas + ou – que precisa o ciclo dos dias
para ser
.
No ano 3000
irmãos iremos mudos no silêncio
as mãos em flor cobrindo o mundo imenso
imenso verde enorme e verde
que eu já não vejo
...tão perto e longe de ver que já não vejo
mas quero e creio e vejo e penso
….ah pobre de mim
o verde o verde o verde imenso
.
em POEMA PARA HOJE
 .
 DESEJO UM BOM ANO DE 2011

PARA TODOS OS MEUS ESTIMADOS LEITORES
 .

domingo, 19 de dezembro de 2010

POEMA DE NATAL

 .
Vem das profundezas da memória do fim das trevas
um caminho mítico para os exercícios da alegria
do barro ainda mole dos objectos.
.
Assim o pressentimos com fogos de encantamento
a enorme plenitude do orvalho das manhãs.
.
Talvez nos enredemos em ludíbrios ágeis
pela cerimónia de louvar a imagem virtual dum deus
em seu nicho distante negligenciando as vozes da planície
.
mas vale a pena tentarmos nós próprios a utopia
porque os deuses estão longe delidos noutros dilemas
noutras abstractas equações inatingíveis
porventura ainda mais utópicas que as nossas.
.
Diremos Natal como se diz um bálsamo
ou um violino tangendo as cores dum perdido chão
testemunhando os alicerces duma fogueira na água
e no pó do nosso destino também um murmúrio incerto
alheio à vontade transparente das estrelas.
DESEJO UM FELIZ NATAL 
A TODOS 
OS MEUS ESTIMADOS LEITORES

domingo, 12 de dezembro de 2010

O MECANISMO DO VENTO

.
Entender o mecanismo do vento, o seu carácter transitório,
o caminho das pétalas duma flor sobre um vidro transparente
que reflecte a imagem do próprio frio do vidro colado ao tempo
.
é um acto que pressupõe a elaboração cuidada dum inventário
das causas remotas, um roteiro para o exacto declive das águas
que vêm da montanha, coabitando na terra, unindo-se à terra.
.
Essa é a verdadeira ciência dos musgos e do pólen que alaga
os nossos olhos com círculos irisados de sol, que transfigura
o nome que se dá a uma maçã, mesmo se na forma duma pedra;

e dessa textura é a frágil química dos sonhos, da predestinação
das noites caindo devagar sobre as nossas mãos demoradas,
a sua eterna transfiguração, o ciclo da água, o círculo do planeta.
.
em Terrachã, ed. AJEA

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

MEMÓRIAS


.
Ainda restam uns pedaços do sonho
porque os sonhos perduram para além do sonho
porque a tua lembrança acende todas as lembranças
porque outras imagens murmuram a tua imagem.
.
É pois, o tempo das memórias,
da água que desliza sobre as águas
o vento que se dilui nos ares
a pedra petrificada restituindo a pedra.
.
Restos de palavras que dizem outras palavras,
de alegrias que imitam a alegria,
de pequenos silêncios no vazio silente
irrepetível do sonho
que fez de ti a tua imagem em outrem,
despedaçando-se,
até vir o ágil mar do sono.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

AS CASAS HABITAM A CIDADE


 .
As casas habitam a cidade
revolvem as ruas e seus ciclos,
o acto solene de preservar a rotina
das gerações,
o célere perpassar pelos dias da ambiguidade.
.
O fogo e o fumo ilustram a paisagem.
.
Não há veleidade para o desgaste intransigente
das pedras, o pó que é levado pelas águas.
.
Só o tempo se mantém imóvel
pairando como uma luz violenta, nítida
até quando se apagarem as luzes
na cidade,
dentro da nossa casa.

em  "CAUSAS DE HABITUAÇÃO"  (em projecto)

terça-feira, 23 de novembro de 2010

CREPÚSCULO

 .
Anuncia-se num ciclo de crepúsculos efémeros
a velocidade do tempo, o seu fluir fantasmagórico
indiferente aos ecos, aos espasmos dos corpos.
 .
É o cerco usual das evocações extintas
em outras cerimónias de exaustão, fogueiras
transformadas em pedra, vestígios de vertigens.
 .
Ilumina as neblinas com um prelúdio de sinais
que escondem o rasto das coisas, o seu halo
redundante, como um violino voando ao vento.
 .
E esvanece a sedução dos tranquilos dias, na voz
duma espiral em desequilíbrio, na nudez das horas,
um pântano onde caem as pétalas duma flor vazia.
 .
em  "Por detrás das Palavras", edição MIC, Estoril, 2002, esg.
.
A 2ª edição está para breve, no Brasil.


terça-feira, 16 de novembro de 2010

O VERME

.

Hoje percebo o cortejo dos homens
no altar do tempo
………sem preço
………sem promessa
………sem vitória.
 .
Hoje percebo o ajeitar da fêmea
e o sôfrego momento viril
da eternidade transmitida.
 .
Hoje percebo o sal, o estrume
o reclame dourado do sol.
.
E até o verme repugnante
que nas mãos invento aos poucos
e nos sinais descubro o mesmo ciclo
de eternidade viva
………hoje
que eu vivo
percebo e canto.
.
em POEMAS PRIMEIROS, esg

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

ESTOU VIVO


 -
Estou vivo e aqui vivo a minha vida.
.
É como se nada houvesse, como se tudo
não fosse mais que uma imagem neutra,
um vazio vazio de tempo, intemporal
no espaço transitório que me cerca e flui.
.
Passa por aqui como eu passo por ela,
anónimo de ofícios de ligeireza íntima,
como insecto matinal que desfralda as asas
e voa pelos sentidos, pelo hálito do vento
e sobre o chão desliza, mágico, urgente.
.
 em "TRANSPARÊNCIAS", ed. AJEA

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

POEMA EM NOVEMBRO


 .
Era Novembro e chovia na cidade.
              .             
Pairava um halo sobre as casas
um fastio dulcíssimo nos corpos.
 .
Soavam fogos de harmonias
que falavam de outras eras
doutros sonhos, doutras águas
  .      
palavras que traziam novelos de palavras, 
murmúrios, comércio de pequenas alegrias
que acendiam memórias doutros gestos
 .                 
e uma flauta que ardia nos teus olhos
a melancolia esdrúxula de meus dias.
 .
 Em "Causas de Habituação", a publicar

domingo, 31 de outubro de 2010

AS CORES DO POEMA

AS CORES DO POEMA - EXPOSIÇÃO

Está para breve a minha 1ª Exposição de Poesia Ilustrada - 
As Cores do Poema
(exclusivamente concebida com meios informáticos). 
Os quadros apresentam-se em formado A 3,
com passe-partout e moldura.
Durante a inauguração, 
será apresentado o livro do mesmo nome 
(o meu 19º  livro de poesia), 
que inclui as miniaturas de todos os quadros.

Um dos quadros da Exposição

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

RELATÓRIO

1ºs dois versos 
e últimas estrofes 
do poema de 151 versos "Relatório"
 .
Já não sou quem era.
Já não sou quem erra pelos caminhos claros (...)
 .
 (...)
.
Regresso a casa.
.
Hoje é tarde para ir mais longe.
.
Refugio-me no sono
o sonho
- o velho amigo da criança -,
que vem de longe,
do primeiro anoitecer da claridade.
 .
Percebo pela última vez
que já não sou quem era,
porque vejo nas clareiras do céu
em verdes de cinzento e negro
o erro da minha vida,
a luz na água que deslumbrou
o meu pecado original
 .
porque já não me reconheço nos princípios
que regulam o princípio por que se regem
as coisas,
a sua matemática de cores e formas,
a ciência do abstracto sobrevoar
do tempo.
 .
em "5 Poetas de Lagos", Volume IV, 2008

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

PROFESSAR ESTA LUZ

.
Professar esta luz, aceitar a eternidade dum sonho,
um fluido inquieto salpicado de murmúrios
que se constroem pela sua essência, em seu ovo
de intensidade latente, viva, de seu próprio fluido.
.
Assistir à discreta cerimónia de ver arder o fogo
como quem ouve, ou julga ouvir num búzio o mar
e ater-se à tarefa inteira de respirar a paisagem,
a sua presença nua, o seu ofício perpétuo de cinzas. 
.
Para isso habitaremos as casas, os seus tectos serenos
apenas perturbados pelo gelo amargo dos invernos
e só temos a interpretar o tranquilo perfil das árvores
para entender as suas flores e o seu silêncio.
.
Em Terrachã, ed. AEA

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

O FRIO DOS DIAS

 .
Do que eu falo
 .
Falo das pedras
falo dos passos
falo das noites
rente ao rio.
 .
Falo das coisas
falo das falas
falo das asas
de fogo e cio.
 .
Falo das folhas
falo da morte
falo do canto
de amor e frio.
.
Poema inicial de "O Frio dos Dias", esg.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

SONETO CLÁSSICO


sonetos #3
 .
Boiando sobre as águas inquietas
do lago macilento e oleoso,
vai ficando, parado e duvidoso,
o barco das viagens incompletas.
 .
E a Lua, dos amantes e poetas,
reflecte a vela branca do formoso
batel, no lago espelho tenebroso,
como ideais desfeitos de profetas.
 .
E as sombras errantes dos salgueiros
pintam fantasmas negros e medonhos,
no batel de esperanças e de sonhos.
 .
E o poeta e eu, os marinheiros,
escondem-se nas sombras do luar
e abraçam-se e beijam-se a chorar.
em "37 Poemas", 1961, esg 

sábado, 2 de outubro de 2010

POEMA AO PÓ

  .
A redescoberta que é ver o pó, cheirar o pó,
cheirar a pó. É um rumor inerte, um retrato
tangível de outras memórias perfurantes,
um vazio entre azuis e baços no chão da terra
gritando segredos abatidos ao silêncio ileso.
.
Praticar a ciência do pó é viajar pelos gelos
da montanha, um texto insondável de signos
sobre a água, reminiscência doutras águas
de apenas a cognição nua, virgem, das fontes
.
é desvendar a erosão, o murmúrio de colunas
gregas, efémeras, a inocente exaltação das aves
assim que o sol reacende a festa inadiável

-
e contemplar uma indústria sem nome e sem data,
sem prólogo, divina, puríssima, demoníaca.

 .
em "Terrachã", ed. AJEA
 
  .

domingo, 26 de setembro de 2010

DESÍGNIO

.
São os ventos a interpretar o verdadeiro desígnio destes campos,
migalhas de pó que se transportam ondeando as ervas e os matos
para um tempo breve, onde dispor um incêndio, junto ao corpo
das excessivas lembranças, no anónimo exílio das cidades.
 .
Quanto basta é o sossego dos lugares soltos ao festim do sol,
a asa dum insecto que se recorta no azul perdurável da terra.
 .
Assim me ensinaram os perfumes da urze, que chegam de longe,
o estorninho escondido dos olhares, desconfiado dos destinos.
.
E aqui reconheço, no chão caminho das águas, a serenidade
deste pastor imperturbável às formas fulgurantes do silêncio
que soa entre as árvores, o trânsito liberto, perpétuo, das seivas,
a exacta, útil degenerescência do conceito urbano de solidão.
 -
 em "Terrachã", ed. AJEA, 2004

terça-feira, 21 de setembro de 2010

O EDIFÍCIO DAS PALAVRAS

,
..........O edifício das palavras,
..........o projecto inerente à ideia
..........e aos degraus da leitura,
.
..........o processo linear dos sons
..........e dos afectos
.
..........um pouco de embriagues
..........para questionar as sombras e a luz
.
..........eis a explosão programada
.
..............o poema
.
..........a desobediência aos mistérios
..........no desassossego e na emoção
..........de dizer o indizível
-
..........à luz do dia.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

NAS LADEIRAS

.......
    Nas ladeiras procuramos a utopia 
....que nivelou o chão das nossas vidas, 
....o sol em promontórios procuramos
....para acalentar parábolas do amor.

....Procuramos a tranquilidade no delírio
....de interpretar enigmas perduráveis,
....mas o nosso destino alado só achamos
....na cerimónia dum beijo peregrino.

....Assim nos cercamos de águas frias
....caindo sobre a fronte desde a noite
....e morremos de mortes mal vividas
....pela vida que tivemos nos caminhos.

sábado, 14 de agosto de 2010

SOMOS UM ARQUIVO


 .
Somos um arquivo bucólico de memórias,
o mote rústico duma estrofe repetida
ecoada pelos vales, plena de sabores e sal
que transportamos pela vida, dentro do sangue,
e entretemo-nos na presunção de que cresçam
dos nossos actos as ervas regeneradas
pela primavera das vidas que perpassam.
 .
Conservamos imagens bolorentas, baços
retratos de antepassados que mal conhecemos
talvez na esperança de que os nossos filhos
guardem os nossos, ou os venerem
e evoquem outros rastos de outras vidas,
entendam a frágil angústia que foi a nossa.
 .
Elas são o espelho de cópias degeneradas
iguais à paisagem que adivinhamos na história
dos que por aqui passaram deixando lembranças
de outros dramas ou alegrias passageiras
iguais às que se avizinham no tempo que passa
por cima do grande mar que desponta os sóis.
.
em Por detrás das Palavras, ed Mic

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

DO QUE EU GOSTO

 .
(Da autenticidade à metáfora)
.
Do que eu gosto é da chuva e do vento,
tremores de terra, relâmpagos
que enchem os céus de luz e dúvida,
e enlevo, pela extraordinária energia
que fez a vida dos bichos maiores
e dos bichos menores,

,
ah, como eu gosto das tempestades
de neve e de areia,
os vulcões a jorrar
as entranhas do magma!
,
Também gosto dos sóis violentos do sul,
as enxurradas do rio
trazendo a lama e o húmus,
as árvores e o inverno
antes da primavera doutras ervas.
,
O que eu não gosto é ver
meninos de áfrica de pés trucidados
por granadas
e bombas B 52,
napalm,
odeio.
.
O que eu gosto é do sabor violento
dos grandes temporais do mar
galgando a terra
com as suas enormes cores de frescura
e fantasia,

.
o frio árctico das montanhas
dum deserto árido,
no meio duma floresta tropical,
adoro.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

POEMETO


.....Poema ainda
.
........Ave e seta como a luz
........rasgando a bruma
.
.

........Lume sob a cinza
..
.
........Liberta asa
........que o arco ainda tenso
.
........abrasa
.
..............em "A Palavra em Duas", 1982, esgotado

sexta-feira, 30 de julho de 2010

APRESENTAÇÃO DE LIVRO

"BREVE HISTÓRIA DOS COMETAS"
.
Praia da Luz, ao entardecer
:

.

 .
O autor agradece  a todos quantos me deram a honra de estar presentes,
e ao arq. Pedro Magalhães, Presidente da Junta de Freguesia da Luz, 
sem o qual não teria sido possível esta apresentação,
na 1ª Feira do Livro, desta bonita vila do Concelho de Lagos.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

O PASSADO ACENDE REMINISCÊNCIAS

.
O passado acende reminiscências
como reflexos de sol num lago inerte,
uma lâmina de frio ao soar das brumas
onde a luz se escoa sobre a terra chã.
 -
É a tarde a assomar os restos da tarde
a submergir as evocações derradeiras
de sal e cinza sobre o eco das sombras
num grande desassossego de memórias.
-
Prosseguimos preservando o seu amparo
à beira das palavras ainda vivas na memória
e os nossos passos seguem no chão dizendo
o clamor da terra a reclamar seu pão.
 .

sexta-feira, 9 de julho de 2010

POEMA A UM PARDAL


 -
Quanto, pardalito,
comungas do meu tempo!

És meu irmão no espaço duma vida -
a minha e a tua vida
no tempo que é o nosso.
 .
Por isso somos irmãos irrepetíveis
no espaço do tempo
que o tempo dá às nossas vidas.
 .
Por isso, irmão,
de todos os que vivem o espaço que é o nosso,
eu te pertenço como me pertences
e todos nos pertencem
porque a todos pertencemos
e à terra ao céu e ao vento
do tempo 
e do espaço do tempo irrepetível
que é nosso! 
8.7.2009

segunda-feira, 5 de julho de 2010

POEMA A UMA VELHA ÁRVORE

 .
O perfil duma velha árvore enche-nos de alegria.
,
A sua sombra traz-nos a presença tranquila da terra,
a forma da própria Terra, a sua frescura fraterna.
.
É uma pátria renovada de palavras anunciadas, lidas
nas vozes do rio, nas rotas do sol transbordante;
.
ela restitui os desvelos relembrados desde infância,
a cândida explicação dos perfumes pronunciados
noutros tempos imateriais, mágicos de plenitude;
.
traz a serenidade neutra, a harmonia dos outonos
na imagem dum rebanho que regressa pela tarde,
nas chuvas temporãs próprias do cheiro do barro,
a secular legítima ideia dum tecto restaurado;
.
organiza os enxames, une os sons do ar instável,
esvanece o orvalho vagaroso deslizante do corpo.
.
O colo duma velha árvore é o sonho duma criança
perpetuando a redobrada paz, e acende na água
rumorejante das fontes a sedução dos pássaros.

.
em Terrachã, ed. AJEA

quarta-feira, 30 de junho de 2010

O Edifício da Palavra

--

........-..O edifício das palavras,
..........o projecto inerente à ideia
..........e aos degraus da leitura,
,
..........o processo linear dos sons
..........e dos afectos
.
..........um pouco de embriagues
..........para questionar as sombras e a luz
.
..........eis a explosão programada
.
..............o poema
.
..........a desobediência aos mistérios
..........no desassossego e na emoção
..........de dizer o indizível
.
..........à luz do dia.


.............................inédito

domingo, 20 de junho de 2010

COMECEI

 Hoje comecei,
mas não ri
nem chorei.
.
Comecei
como se começa,
nem devagar
nem depressa.
.
Comecei
como se termina.
,
Começar e acabar
é mesma sina.
.
Não vale a pena ter pressa...
. .

em "Poemas Primeiros". Ed. AJEA - (reedição)

quinta-feira, 10 de junho de 2010

O MECANISMO DO VENTO


.
.
Entender o mecanismo do vento, o seu carácter transitório,
o caminho das pétalas duma flor sobre um vidro transparente
que reflecte a imagem do próprio frio do vidro colado ao tempo
.
é um acto que pressupõe a elaboração cuidada dum inventário
das causas remotas, um roteiro para o exacto declive das águas
que vêm da montanha, coabitando na terra, unindo-se à terra.
.
Essa é a verdadeira ciência dos musgos e do pólen que alaga
os nossos olhos com círculos irisados de sol, que transfigura
o nome que se dá a uma maçã, mesmo se na forma duma pedra;

e dessa textura é a frágil química dos sonhos, da predestinação
das noites caindo devagar sobre as nossas mãos demoradas,
a sua eterna transfiguração, o ciclo da água, o círculo do planeta.
,
em Terrachã, ed. AJEA

sábado, 5 de junho de 2010

Pedro Pedra


 .
O que eu queria era ter sido Pedro
porque Pedro lembra a pedra, a concha
antiga, a tranquilidade da urze liberta
num cântico só de terra e de montanha.
.
Ela é feita de silêncios e sol,
a ressurreição do saber das horas
ausentadas do discurso das águas
num livro que persiste imperturbável.
.
Apenas olha os céus, não os observa
nem se imagina no acto de contemplar
as cores que ardem sob as estrelas
nas ruínas doutros limos sobre a praia.
.
O que eu queria era ter sido Pedro
porque, para arder no frio que passa,
árido e negligente aos sóis e aos sonos,
tanto faz uma rosa, como um silêncio.
.
em "Transparências", ed. AJEA