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,

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Expirados são os Prazos

 .
Um dos poemas do meu livro
 .
"Por detrás das Palavras"
.
(esgotado em Portugal)
,
a sair brevemente, em S. Paulo, no Brasil
 .
Expirados são os prazos, expostas estão as certezas
dos migrantes da terra direito às profundezas
- a nossa mais delicada reflexão.

É breve o juízo que fazemos das coisas. Breve
a matéria conhecida dos afectos, das dúvidas,
para deduzir equações inteligíveis.

Sofremos a candura dum olhar benévolo
por cada passo, por cada aceno de mão
dum outro viandante que se perde na estrada,
às escuras dum novo dia
e entendemos nessa predestinação a nossa luta.

Mas o caminho foi rasgado num golpe de vento
numa ravina cheia de indícios de fogo morto
num rio indolente que sabe o vigor do mar,
as rédeas dum chicote brandido à noite.

Percebemos o milagre violento dos magmas
por ver as cinzas jazidas nos corpos ardentes,
ao nascer da aurora inquieta das palavras.

Experimentamos o encolerizar das últimas
vozes da terra, nuas de desespero,
frias de lembranças destroçadas e acesas
pelo sal cristalizado num deserto de água.

Mas somos o nosso último pretexto para amar a terra
e os seus enigmas instintivos mas obscuros,
com que descrevemos a laboriosa seiva das árvores.
 ,
em "Por detrás das Palavras", Edição Beco dos Poetas, S. Paulo

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

OS CAMINHOS DA VIDA


 -
Os caminhos da vida trazem-me indícios
dum silêncio por desvendar.
 .
Na grande planície soa uma serenidade
sem bermas, como as iluminuras donde luz o sol
eterno olhando a terra com bonomia.
 .
Será esse o segredo das grandes travessias
indiferentes à resolução dos mistérios extensivos
do pó que cobre as árvores desfeitas
em turfa, fósseis modelados por milénios?
 -
Será esse o segredo que desconheço
ou ignoro, das vivências minúsculas dos seres simples
que apenas procuram um rastro de luz
para abençoar, cumprir os seus dias?

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

SEM TÍTULO III


.
Tudo o que se ilumina se desfaz.
,
Só a água perdura
no seio do mar
.
como as palavras ditas
por dentro das palavras.

em "POEMETOS", livro II
em preparação


sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Poema aos Condenados

 -
Já não era possível voltar atrás,
nem era possível fitar o caminho passado
com a alegria de o ter vencido.
.
Agora todo o arco do céu se recobria das suas cores nítidas
com fantasmas de luz fátua, constelações austeras,
andrómeda e hidra,
ainda o mesmo mistério obscuro
calava as serpentes de sedução que se enroscavam nas árvores,
à beira da mais pura lídima transgressora alegria.
.
As póstumas metáforas de sol dardejavam desejos imprecisos,
obsessões ímpias, espectros.
-
Soava uma melodia melancólica que anunciava o principio do fim,
como se ouvíssemos um piano moribundo indo para os graves.
-
Agora tudo se resumia a um espasmo de nocturnas
efémeras mariposas despedaçadas ao calor do dia claro,
amaldiçoando os regressos da luz,
a luz coada etérea das estrelas que para sempre brilham nos céus
e que espalham os seus ocasos imperceptíveis vagarosos,
nos olhos dos condenados.

.
Inédito

sábado, 22 de janeiro de 2011

AS CORES DIZEM O TEMPO



.As cores dizem o tempo,
.o granizo que embranquece as arestas do granito,
.o hortelã respirando pequenas flores de sabor a sul.

.Ó a antiga sapiência das árvores
.e dos caminhos
.e da plenitude nas planícies de verdura!

.Como não hei-de segredar o teu nome
.ó bonina de incenso, em noites de paixão,
.nos pântanos que parecem eternizar os teus segredos?

.És o pólen e a cegueira
.de espirais hipnóticas de paz e medo,
.em águas nascentes de musgo e de frescura.

.És a vertigem duns olhos feridos pelo orvalho
.das manhãs, ao cair da tarde
.e eu te invoco na busca dos limites
.que fazem o fascínio, a vigília perturbada
.do teu violoncelo tocando ao vento.

domingo, 2 de janeiro de 2011

POEMAS ILUSTRADOS (6)

MARINHEIRO


 .
Este é um dos quadros da minha 
1ª Exposição de Poesia Ilustrada, 
concebida apenas por meios informáticos.
A Exposição será inaugurada no Espaço Cultural Artebúrger, 
Praia da Luz (Lagos), no dia 15 de Janeiro, pelas 17 horas.
.
Na mesma data será apresentado o opúsculo "As Cores do Poema", 
que contém os poemas integrais e as miniaturas dos quadros.
.
* Os quadros, em formato A3, têm moldura e passe-partout.

domingo, 26 de dezembro de 2010

NO ANO 3000

 .
No ano 3000
aquele burro triste do prado verde
aquele burro pardo preso ao círculo verde
da corda antiquíssima
enfim    virá nas patas livres
percorrendo o prado imenso
.
No ano 3000
na minha rua
a relva tenra de entre as pedras florescendo
cobrirá especiosa em manto verde
as pedras variadas que hoje piso
.
No ano 3000
no sol     a máquina dos átomos   
..estável  
….consciente
apenas pulsará no éter do sistema
as partículas + ou – que precisa o ciclo dos dias
para ser
.
No ano 3000
irmãos iremos mudos no silêncio
as mãos em flor cobrindo o mundo imenso
imenso verde enorme e verde
que eu já não vejo
...tão perto e longe de ver que já não vejo
mas quero e creio e vejo e penso
….ah pobre de mim
o verde o verde o verde imenso
.
em POEMA PARA HOJE
 .
 DESEJO UM BOM ANO DE 2011

PARA TODOS OS MEUS ESTIMADOS LEITORES
 .

domingo, 19 de dezembro de 2010

POEMA DE NATAL

 .
Vem das profundezas da memória do fim das trevas
um caminho mítico para os exercícios da alegria
do barro ainda mole dos objectos.
.
Assim o pressentimos com fogos de encantamento
a enorme plenitude do orvalho das manhãs.
.
Talvez nos enredemos em ludíbrios ágeis
pela cerimónia de louvar a imagem virtual dum deus
em seu nicho distante negligenciando as vozes da planície
.
mas vale a pena tentarmos nós próprios a utopia
porque os deuses estão longe delidos noutros dilemas
noutras abstractas equações inatingíveis
porventura ainda mais utópicas que as nossas.
.
Diremos Natal como se diz um bálsamo
ou um violino tangendo as cores dum perdido chão
testemunhando os alicerces duma fogueira na água
e no pó do nosso destino também um murmúrio incerto
alheio à vontade transparente das estrelas.
DESEJO UM FELIZ NATAL 
A TODOS 
OS MEUS ESTIMADOS LEITORES

domingo, 12 de dezembro de 2010

O MECANISMO DO VENTO

.
Entender o mecanismo do vento, o seu carácter transitório,
o caminho das pétalas duma flor sobre um vidro transparente
que reflecte a imagem do próprio frio do vidro colado ao tempo
.
é um acto que pressupõe a elaboração cuidada dum inventário
das causas remotas, um roteiro para o exacto declive das águas
que vêm da montanha, coabitando na terra, unindo-se à terra.
.
Essa é a verdadeira ciência dos musgos e do pólen que alaga
os nossos olhos com círculos irisados de sol, que transfigura
o nome que se dá a uma maçã, mesmo se na forma duma pedra;

e dessa textura é a frágil química dos sonhos, da predestinação
das noites caindo devagar sobre as nossas mãos demoradas,
a sua eterna transfiguração, o ciclo da água, o círculo do planeta.
.
em Terrachã, ed. AJEA

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

MEMÓRIAS


.
Ainda restam uns pedaços do sonho
porque os sonhos perduram para além do sonho
porque a tua lembrança acende todas as lembranças
porque outras imagens murmuram a tua imagem.
.
É pois, o tempo das memórias,
da água que desliza sobre as águas
o vento que se dilui nos ares
a pedra petrificada restituindo a pedra.
.
Restos de palavras que dizem outras palavras,
de alegrias que imitam a alegria,
de pequenos silêncios no vazio silente
irrepetível do sonho
que fez de ti a tua imagem em outrem,
despedaçando-se,
até vir o ágil mar do sono.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

AS CASAS HABITAM A CIDADE


 .
As casas habitam a cidade
revolvem as ruas e seus ciclos,
o acto solene de preservar a rotina
das gerações,
o célere perpassar pelos dias da ambiguidade.
.
O fogo e o fumo ilustram a paisagem.
.
Não há veleidade para o desgaste intransigente
das pedras, o pó que é levado pelas águas.
.
Só o tempo se mantém imóvel
pairando como uma luz violenta, nítida
até quando se apagarem as luzes
na cidade,
dentro da nossa casa.

em  "CAUSAS DE HABITUAÇÃO"  (em projecto)

terça-feira, 23 de novembro de 2010

CREPÚSCULO

 .
Anuncia-se num ciclo de crepúsculos efémeros
a velocidade do tempo, o seu fluir fantasmagórico
indiferente aos ecos, aos espasmos dos corpos.
 .
É o cerco usual das evocações extintas
em outras cerimónias de exaustão, fogueiras
transformadas em pedra, vestígios de vertigens.
 .
Ilumina as neblinas com um prelúdio de sinais
que escondem o rasto das coisas, o seu halo
redundante, como um violino voando ao vento.
 .
E esvanece a sedução dos tranquilos dias, na voz
duma espiral em desequilíbrio, na nudez das horas,
um pântano onde caem as pétalas duma flor vazia.
 .
em  "Por detrás das Palavras", edição MIC, Estoril, 2002, esg.
.
A 2ª edição está para breve, no Brasil.


terça-feira, 16 de novembro de 2010

O VERME

.

Hoje percebo o cortejo dos homens
no altar do tempo
………sem preço
………sem promessa
………sem vitória.
 .
Hoje percebo o ajeitar da fêmea
e o sôfrego momento viril
da eternidade transmitida.
 .
Hoje percebo o sal, o estrume
o reclame dourado do sol.
.
E até o verme repugnante
que nas mãos invento aos poucos
e nos sinais descubro o mesmo ciclo
de eternidade viva
………hoje
que eu vivo
percebo e canto.
.
em POEMAS PRIMEIROS, esg

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

ESTOU VIVO


 -
Estou vivo e aqui vivo a minha vida.
.
É como se nada houvesse, como se tudo
não fosse mais que uma imagem neutra,
um vazio vazio de tempo, intemporal
no espaço transitório que me cerca e flui.
.
Passa por aqui como eu passo por ela,
anónimo de ofícios de ligeireza íntima,
como insecto matinal que desfralda as asas
e voa pelos sentidos, pelo hálito do vento
e sobre o chão desliza, mágico, urgente.
.
 em "TRANSPARÊNCIAS", ed. AJEA

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

POEMA EM NOVEMBRO


 .
Era Novembro e chovia na cidade.
              .             
Pairava um halo sobre as casas
um fastio dulcíssimo nos corpos.
 .
Soavam fogos de harmonias
que falavam de outras eras
doutros sonhos, doutras águas
  .      
palavras que traziam novelos de palavras, 
murmúrios, comércio de pequenas alegrias
que acendiam memórias doutros gestos
 .                 
e uma flauta que ardia nos teus olhos
a melancolia esdrúxula de meus dias.
 .
 Em "Causas de Habituação", a publicar

domingo, 31 de outubro de 2010

AS CORES DO POEMA

AS CORES DO POEMA - EXPOSIÇÃO

Está para breve a minha 1ª Exposição de Poesia Ilustrada - 
As Cores do Poema
(exclusivamente concebida com meios informáticos). 
Os quadros apresentam-se em formado A 3,
com passe-partout e moldura.
Durante a inauguração, 
será apresentado o livro do mesmo nome 
(o meu 19º  livro de poesia), 
que inclui as miniaturas de todos os quadros.

Um dos quadros da Exposição

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

RELATÓRIO

1ºs dois versos 
e últimas estrofes 
do poema de 151 versos "Relatório"
 .
Já não sou quem era.
Já não sou quem erra pelos caminhos claros (...)
 .
 (...)
.
Regresso a casa.
.
Hoje é tarde para ir mais longe.
.
Refugio-me no sono
o sonho
- o velho amigo da criança -,
que vem de longe,
do primeiro anoitecer da claridade.
 .
Percebo pela última vez
que já não sou quem era,
porque vejo nas clareiras do céu
em verdes de cinzento e negro
o erro da minha vida,
a luz na água que deslumbrou
o meu pecado original
 .
porque já não me reconheço nos princípios
que regulam o princípio por que se regem
as coisas,
a sua matemática de cores e formas,
a ciência do abstracto sobrevoar
do tempo.
 .
em "5 Poetas de Lagos", Volume IV, 2008

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

PROFESSAR ESTA LUZ

.
Professar esta luz, aceitar a eternidade dum sonho,
um fluido inquieto salpicado de murmúrios
que se constroem pela sua essência, em seu ovo
de intensidade latente, viva, de seu próprio fluido.
.
Assistir à discreta cerimónia de ver arder o fogo
como quem ouve, ou julga ouvir num búzio o mar
e ater-se à tarefa inteira de respirar a paisagem,
a sua presença nua, o seu ofício perpétuo de cinzas. 
.
Para isso habitaremos as casas, os seus tectos serenos
apenas perturbados pelo gelo amargo dos invernos
e só temos a interpretar o tranquilo perfil das árvores
para entender as suas flores e o seu silêncio.
.
Em Terrachã, ed. AEA

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

O FRIO DOS DIAS

 .
Do que eu falo
 .
Falo das pedras
falo dos passos
falo das noites
rente ao rio.
 .
Falo das coisas
falo das falas
falo das asas
de fogo e cio.
 .
Falo das folhas
falo da morte
falo do canto
de amor e frio.
.
Poema inicial de "O Frio dos Dias", esg.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

SONETO CLÁSSICO


sonetos #3
 .
Boiando sobre as águas inquietas
do lago macilento e oleoso,
vai ficando, parado e duvidoso,
o barco das viagens incompletas.
 .
E a Lua, dos amantes e poetas,
reflecte a vela branca do formoso
batel, no lago espelho tenebroso,
como ideais desfeitos de profetas.
 .
E as sombras errantes dos salgueiros
pintam fantasmas negros e medonhos,
no batel de esperanças e de sonhos.
 .
E o poeta e eu, os marinheiros,
escondem-se nas sombras do luar
e abraçam-se e beijam-se a chorar.
em "37 Poemas", 1961, esg 

sábado, 2 de outubro de 2010

POEMA AO PÓ

  .
A redescoberta que é ver o pó, cheirar o pó,
cheirar a pó. É um rumor inerte, um retrato
tangível de outras memórias perfurantes,
um vazio entre azuis e baços no chão da terra
gritando segredos abatidos ao silêncio ileso.
.
Praticar a ciência do pó é viajar pelos gelos
da montanha, um texto insondável de signos
sobre a água, reminiscência doutras águas
de apenas a cognição nua, virgem, das fontes
.
é desvendar a erosão, o murmúrio de colunas
gregas, efémeras, a inocente exaltação das aves
assim que o sol reacende a festa inadiável

-
e contemplar uma indústria sem nome e sem data,
sem prólogo, divina, puríssima, demoníaca.

 .
em "Terrachã", ed. AJEA
 
  .

domingo, 26 de setembro de 2010

DESÍGNIO

.
São os ventos a interpretar o verdadeiro desígnio destes campos,
migalhas de pó que se transportam ondeando as ervas e os matos
para um tempo breve, onde dispor um incêndio, junto ao corpo
das excessivas lembranças, no anónimo exílio das cidades.
 .
Quanto basta é o sossego dos lugares soltos ao festim do sol,
a asa dum insecto que se recorta no azul perdurável da terra.
 .
Assim me ensinaram os perfumes da urze, que chegam de longe,
o estorninho escondido dos olhares, desconfiado dos destinos.
.
E aqui reconheço, no chão caminho das águas, a serenidade
deste pastor imperturbável às formas fulgurantes do silêncio
que soa entre as árvores, o trânsito liberto, perpétuo, das seivas,
a exacta, útil degenerescência do conceito urbano de solidão.
 -
 em "Terrachã", ed. AJEA, 2004

terça-feira, 21 de setembro de 2010

O EDIFÍCIO DAS PALAVRAS

,
..........O edifício das palavras,
..........o projecto inerente à ideia
..........e aos degraus da leitura,
.
..........o processo linear dos sons
..........e dos afectos
.
..........um pouco de embriagues
..........para questionar as sombras e a luz
.
..........eis a explosão programada
.
..............o poema
.
..........a desobediência aos mistérios
..........no desassossego e na emoção
..........de dizer o indizível
-
..........à luz do dia.