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terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Recantos Ocultos


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Também a casa tem os seus recantos ocultos
que se encolhem em umbrais austeros,
numa obscuridade sinuosa, impermeável.
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São a matéria excedente do latejar do sangue,
uma fogueira extinta pelo seu próprio fumo
caída sobre a cinza de magoadas flores.
 .
Não impedem ao tempo o seu galgar sereno
fechado na missão de arrefecer as cinzas
para a dispersão programada dos vestígios. 
 .
Estão ali porque completam a função do lar
os seus esteios multicolores, o seu espectro,
uma luta verdadeira entre as trevas e a luz.
 .
em "Causas de Habituação", a publicar

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

PROFESSAR ESTA LUZ

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Professar esta luz, aceitar a eternidade dum sonho,
um fluido inquieto salpicado de murmúrios
que se constroem pela sua essência, em seu ovo
de intensidade latente, viva, de seu próprio fluido.
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Assistir à discreta cerimónia de ver arder o fogo
como quem ouve, ou julga ouvir num búzio o mar
e ater-se à tarefa inteira de respirar a paisagem,
a sua presença nua, o seu ofício perpétuo de cinzas. 
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Para isso habitaremos as casas, os seus tectos serenos
apenas perturbados pelo gelo amargo dos invernos
e só temos a interpretar o tranquilo perfil das árvores
para entender as suas flores e o seu silêncio.
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Em Terrachã, ed. AEA

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

OS TEUS OLHOS

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Os teus olhos perpetuavam a lembrança dos grandes rios

perpassando na bruma antiquíssima da montanha

e tinham o silêncio trémulo transparente das estrelas

que se extinguem ao clarim da aurora

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Os teus olhos tinham a serenidade dos grandes dias

iluminando a cinza prateada das escarpas

na cor serena tranquila das memórias

que renascem ao clarim da aurora

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Os teus olhos tinham o sussurro rumorejante das ervas

onde crescem os ventos ágeis da planície

a luz milenar da manhã primeira

que me acordou ao clarim da aurora.

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sexta-feira, 25 de julho de 2008

ASA

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.....Poema ainda

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........Ave e seta como a luz
........rasgando a bruma

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........Lume sob a cinza

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........Liberta asa
........que o arco ainda tenso

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........abrasa

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..............em "A Palavra em Duas", 1982, esgotado

segunda-feira, 7 de abril de 2008

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Sem saber como nem donde

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Sem saber como nem donde eu vinha,

enfiei os pés na água escorrendo daqueles olhos escuros

que fitavam a eternidade.

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Estava o caminho recoberto de musgo, líquens sobre a pedra,

pedaços de ervas e árvores decaindo aos bolores do tempo.

Ao lado, uma bola prateada, redonda, rodava na roleta

e caía num poço

que se estendia às fragas da montanha

a avultar na minha frente,

derruindo.

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Sinto um baque no barro do coração.

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Amanhã virá a manhã a sair das trevas.

Sonho, logo ainda existo.

E é pelo sonho que resisto.

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Mas não há maneira de sair dali.


O meu cérebro trabalha tão depressa como a seiva,

o coração da terra reclamando os seus mártires;

tanto mais que eu e ela nos aproximávamos tanto,

nos colávamos tanto na mesma visão de fogo e cinzas,

que eu comecei a perceber que não havia nada

como aquele calor

que me chegava ao sangue e me transformava num ser repleto,

saturado da ternura daquele momento,

daquela suprema verdade.

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Bebi da água

que aos poucos ia dissolvendo o barro do meu coração.

Deixei correr as estradas, as estrelas,

os rios do mesmo deslumbramento.

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Era dia, em todas as madrugadas da minha paixão.

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inédito