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segunda-feira, 30 de maio de 2011

Poema de "Por detrás das Palavras"

 .
Oh, a minha tendência para ver na bruma
figuras acesas de intenso brilho
como estrelas na noite nítida, prodigiosas
de enigmas e pronúncios de duradoiro sol.

Sei de cor as suas feições cinzeladas
pela fria e opaca ilusão da claridade,
uma iluminura de símbolos, de búzios.

Apenas não aceito a sua persistente
aparição, os ecos sempre devolvidos
pelo muro das evidências claras
dum outro mundo de miragens genuínas.

em "Por detrás das Palavras", ed. Beco dos Poetas, S.Paulo, pp 21

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

POEMETO


.....Poema ainda
.
........Ave e seta como a luz
........rasgando a bruma
.
.

........Lume sob a cinza
..
.
........Liberta asa
........que o arco ainda tenso
.
........abrasa
.
..............em "A Palavra em Duas", 1982, esgotado

quarta-feira, 7 de abril de 2010

POEMA AO MAR

...Domingo, 11 de Abril
---

Porque todo o texto literário tem a sua história, veio-me à ideia, revelar as razões que levaram à escrita do poema, desta postagem.

O facto poético que inspirou o texto, é dos domínios do reconto oral.

A estória é simples:

um velho almirante, de visita à cidade, pediu a um amigo para o levar ao Cabo de S. Vicente.

Aí chegados, com o esboço dum sorriso a bailar-lhe nos olhos durante uns instantes, o almirante olhou em silêncio a imensidade daquele mar redondo, e depois disse em voz contida e embargada:

– João... é a última vez que vejo este cão!...

Voltaram para Lagos e pouco depois, o velho lobo do mar morria.

.
* * *
...
Olhava pela última vez o mar
porque ontem é a abstracção da ambiguidade
e a última vez já é hoje
no vácuo de ontem, sem sofisma ou bruma.
.
Olhava-o e sorria
não fora ele ainda uma criança
sem medos, sem o drama
de olhar o mar pela última vez.
.
Aí nascera
sabia-o há milhões de anos
depois do colapso dos dias

.,
como o vento das searas
e a nuvem que esbate o céu

.
na onda que dissolve as noções de tempo
nos silêncios, na bruma da claridade

.
a abstracção de ontem
a última vez a ver o mar

em seu silêncio
.
o colapso do tempo
já hoje.

inédito

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

OS TEUS OLHOS

.

.

Os teus olhos perpetuavam a lembrança dos grandes rios

perpassando na bruma antiquíssima da montanha

e tinham o silêncio trémulo transparente das estrelas

que se extinguem ao clarim da aurora

.

Os teus olhos tinham a serenidade dos grandes dias

iluminando a cinza prateada das escarpas

na cor serena tranquila das memórias

que renascem ao clarim da aurora

.

Os teus olhos tinham o sussurro rumorejante das ervas

onde crescem os ventos ágeis da planície

a luz milenar da manhã primeira

que me acordou ao clarim da aurora.

.