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quinta-feira, 18 de abril de 2013

SONHO


Sem saber como nem donde eu vinha,
enfiei os pés na água
escorrendo daqueles olhos escuros que fitavam a eternidade.
 .
Estava o caminho recoberto de musgo,
líquens sobre a pedra, pedaços de ervas e árvores
decaindo aos bolores do tempo.
 .
Ao lado, uma bola prateada, redonda,
rodava na roleta e caía num poço
que se estendia às fragas da montanha
a avultar na minha frente,
derruindo.
 .
Sinto um baque no barro do coração.
Amanhã virá a manhã a sair das trevas.
 .
Sonho, logo ainda resisto.
E é pelo sonho que insisto.
 .
Mas não há maneira de sair dali.
 .
O meu cérebro trabalha tão depressa como a seiva,
como o coração da terra reclamando os seus mártires.
 .
Tanto mais que eu e ela nos aproximávamos tanto,
nos colávamos tanto na mesma visão de fogo e cinzas,
que eu comecei a perceber que não havia
nada como aquele calor que me chegava ao sangue
e me transformava num ser repleto,
saturado da ternura daquele momento,
daquela suprema verdade.
 .
Bebi da água que aos poucos
ia dissolvendo o barro do meu coração.
 .
Deixei correr as estradas,
as estrelas,
os rios do mesmo deslumbramento.
 .
Era dia,
em todas as madrugadas da minha paixão.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

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Sem saber como nem donde

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Sem saber como nem donde eu vinha,

enfiei os pés na água escorrendo daqueles olhos escuros

que fitavam a eternidade.

.

Estava o caminho recoberto de musgo, líquens sobre a pedra,

pedaços de ervas e árvores decaindo aos bolores do tempo.

Ao lado, uma bola prateada, redonda, rodava na roleta

e caía num poço

que se estendia às fragas da montanha

a avultar na minha frente,

derruindo.

.

Sinto um baque no barro do coração.

.

Amanhã virá a manhã a sair das trevas.

Sonho, logo ainda existo.

E é pelo sonho que resisto.

.

Mas não há maneira de sair dali.


O meu cérebro trabalha tão depressa como a seiva,

o coração da terra reclamando os seus mártires;

tanto mais que eu e ela nos aproximávamos tanto,

nos colávamos tanto na mesma visão de fogo e cinzas,

que eu comecei a perceber que não havia nada

como aquele calor

que me chegava ao sangue e me transformava num ser repleto,

saturado da ternura daquele momento,

daquela suprema verdade.

.

Bebi da água

que aos poucos ia dissolvendo o barro do meu coração.

Deixei correr as estradas, as estrelas,

os rios do mesmo deslumbramento.

.

Era dia, em todas as madrugadas da minha paixão.

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inédito

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

POEMA MUITO RITMADO

...........
............Musgo d’água.....
luz..... escuna d’ar
............em que país..... ou praia limpa..... ou mar


Em que outro gesto..... de ver..... olhando
ó terra..... ó pedra obscura..... quando


Em que país...... ou febre...... ou fogo
certeza certa...... miragem...... logro


És sonho..... és vento...... espuma d`água
raiz do nada...... escolho...... ou fraga


ou te não vejo..... de tanto olhar
neste país..... na praia limpa..... neste mar


Acorda...... Luz...... A noite olvida
Dou-te uma flor..... meu sonho..... a vida


Em "ARABESCOS"; edição litoral.
A ser apresentado no próximo Domingo, dia 24 de Fevereiro,
pelas 16 horas, em Artebúrguer, Praia da Luz, Lagos.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

UM POEMA AO VENTO

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O mecanismo do vento
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Entender o mecanismo do vento, o seu carácter transitório,
o caminho das pétalas duma flor sobre um vidro transparente
que reflecte a imagem do próprio frio do vidro colado ao tempo
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é um acto que pressupõe a elaboração cuidada dum inventário
das causas remotas, um roteiro para o exacto declive das águas
que vêm da montanha, coabitando na terra, unindo-se à terra.
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Essa é a verdadeira ciência dos musgos e do pólen que alaga
os nossos olhos com círculos irisados de sol, que transfigura
o nome que se dá a uma maçã, mesmo se na forma duma pedra;

e dessa textura é a frágil química dos sonhos, da predestinação
das noites caindo devagar sobre as nossas mãos demoradas,
a sua eterna transfiguração, o ciclo da água, o círculo do planeta.
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em Terrachã, ed. AJEA