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terça-feira, 31 de julho de 2012

Barca


16 - BARCA
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Contemplar esta imagem, esta barca doutros séculos,
essas personagens concretas que viveram outras vidas,
outras balbúrdias de céus e mar, sob o tecto exíguo
dum amanhecer limpo de comparanças a outros tempos
   ~.
navegando a sóis e luas, ventos de sueste a norte
e marés de angústia ou fé na crença dos presságios
que liam nas cores inscritas em sinais do céu nocturno
ou em búzios que luziam promessas de corvinas e robalos.
 -
Contemplar esta imagem é navegar estas águas, a crença
que presidia aos destinos, para sempre desprendida
duma onda que veio de longe aqui morrer, junto à praia
onde se extingue a luz que desce devagar sobre os olhos.

***

16 - Barca. Foi numa barca que o diabo de Gil Vicente carregou os vários personagens da Trilogia das Barcas, dos quais, após a crítica moral de cada um, apenas deixou passar para a barca do Paraíso quatro cavaleiros que morreram combatendo e um parvo que não errou por maldade.
Era também numa mitológica barca que Caronte, o barqueiro dos infernos, para aí transportava as almas dos mortos através do Estige, rio que rodeava esses mesmos infernos.
Mas aqui, neste mundo, nesta terra, mais feliz e mais real, foi também em barcas que, em bons tempos, se carregavam os nossos frutos secos para exportação e se descarregava muito esparto e muita palma, com que se faziam as nossas úteis e indispensáveis alcofas e demais artefactos, cuja utilidade actualmente se limita a ser “souvenir” do visitante estrangeiro, mas que para nós ainda funciona como souvenir-saudade de genuínos tempos passados.
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em LAGOS ONTEM, 2ª Edição da Câmara Municipal de Lagos
*
Esta e as outras notas históricas e toponímicas do livro, são de José Paula Borba


sexta-feira, 1 de abril de 2011

UM POEMA


Em S. Paulo

 ,
Do meu livro "Por detrás das Palavras", 
recentemente publicado no Brasil, um poema. 
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Como não havemos de questionar este mundo,
as suas estrelas transgressoras, na aventura temível
de erigir uma flor e destruí-la com um bafo de vento
vindo duma ciência longínqua, um destino indecifrável?
.
É nestes fósseis da pedra, que se lê a impressão digital
dum crepúsculo, uma lâmina de vertigens breves,
ah, um deus ignorante da plenitude do amor terreno,
amor que não se esgota com a morte das espécies.
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Como deveremos interpretar as manifestações
de apego à terra, dos humildes bichos da terra,
uma fogueira inextinguível que há-de ver-se ao longe
quando se apagarem os últimos restos do sol?
-
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domingo, 26 de setembro de 2010

DESÍGNIO

.
São os ventos a interpretar o verdadeiro desígnio destes campos,
migalhas de pó que se transportam ondeando as ervas e os matos
para um tempo breve, onde dispor um incêndio, junto ao corpo
das excessivas lembranças, no anónimo exílio das cidades.
 .
Quanto basta é o sossego dos lugares soltos ao festim do sol,
a asa dum insecto que se recorta no azul perdurável da terra.
 .
Assim me ensinaram os perfumes da urze, que chegam de longe,
o estorninho escondido dos olhares, desconfiado dos destinos.
.
E aqui reconheço, no chão caminho das águas, a serenidade
deste pastor imperturbável às formas fulgurantes do silêncio
que soa entre as árvores, o trânsito liberto, perpétuo, das seivas,
a exacta, útil degenerescência do conceito urbano de solidão.
 -
 em "Terrachã", ed. AJEA, 2004

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

VIAGEM ATRAVÉS DA LUZ

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As primeiras estrofes

do poema "Viagem através da Luz" (4.900 palavras),

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Transitamos através da luz

somos a pura contemplação da luz

a linguagem o cinzel dum barco

em perpétuas lúdicas viagens

ao interior dum mapa

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e os nossos olhos acendem as manhãs

ébrios pela plenitude das manhãs

na linguagem alada dos sentidos e das seivas

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buscam o segredo subterrâneo da alegria

por onde se estende o seio dos rios

as ervas que ecoam pelos caminhos claros.

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São a nossa mais delicada ansiedade

mas também a nossa paixão as suas divagações

pelo oculto obscurecido dos olhos

que ignoram o modo sereno da luz e do pó

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ou as imagens que fixam os contornos do tempo

em figuras intemporais seduzidas

pela linguagem das águas, o caos

do rumor do vento

na dimensão do céu animado pelo voo das aves.

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E são os contornos da paisagem o nosso mundo

a nossa dedicada veneração

este modo quase ausente de persistir

na busca de formas transcendentes

de imagens de modelos de palavras

gémeas do abstracto imaginário dos nossos olhos

.

por onde guiaremos os passos

nas veredas insondáveis

da luz que se acende e apaga

a nossos pés

dentro de nós mesmos.

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-(...)