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domingo, 26 de setembro de 2010

DESÍGNIO

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São os ventos a interpretar o verdadeiro desígnio destes campos,
migalhas de pó que se transportam ondeando as ervas e os matos
para um tempo breve, onde dispor um incêndio, junto ao corpo
das excessivas lembranças, no anónimo exílio das cidades.
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Quanto basta é o sossego dos lugares soltos ao festim do sol,
a asa dum insecto que se recorta no azul perdurável da terra.
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Assim me ensinaram os perfumes da urze, que chegam de longe,
o estorninho escondido dos olhares, desconfiado dos destinos.
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E aqui reconheço, no chão caminho das águas, a serenidade
deste pastor imperturbável às formas fulgurantes do silêncio
que soa entre as árvores, o trânsito liberto, perpétuo, das seivas,
a exacta, útil degenerescência do conceito urbano de solidão.
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 em "Terrachã", ed. AJEA, 2004

terça-feira, 9 de setembro de 2008

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À memória de Irene Silva
que foi dedicada companheira durante anos
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Retomemos o caminho de regresso
pela tarde que não volta ao lugar
donde partimos.
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Amanhã será noite.
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Nem o silêncio dirá a tua perda.
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Nem sequer a mesma árvore que se estende
pelas sombras até ao infinito.

Lírios e rosas não calam a memória
do tempo raso do retorno aos perfumes
que sopravam os teus olhos
em mar e serras.

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O horizonte acaba aqui:
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onde temos os pés
e a saudade.
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5 de Setembro de 2008 (entre Lisboa e Lagos)

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

POEMA A UMA VELHA ÁRVORE

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O perfil duma velha árvore enche-nos de alegria.

A sua sombra traz-nos a presença tranquila da terra,
a forma da própria Terra, a sua frescura fraterna.

É uma pátria renovada de palavras anunciadas, lidas
nas vozes do rio, nas rotas do sol transbordante;

ela restitui os desvelos relembrados desde infância,
a cândida explicação dos perfumes pronunciados
noutros tempos imateriais, mágicos de plenitude;

traz a serenidade neutra, a harmonia dos outonos
na imagem dum rebanho que regressa pela tarde,
nas chuvas temporãs próprias do cheiro do barro,
a secular legítima ideia dum tecto restaurado;

organiza os enxames, une os sons do ar instável,
esvanece o orvalho vagaroso deslizante do corpo.

O colo duma velha árvore é o sonho duma criança
perpetuando a redobrada paz, e acende na água
rumorejante das fontes a sedução dos pássaros.


em Terrachã, ed. AJEA