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segunda-feira, 7 de outubro de 2013

POEMA AO COMPUTADOR

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Oh, meu bento computador,
quanto me trazes em repouso e equilíbrio
com a destreza das tuas funções automáticas
a tua precisa formatação do espaço
e seus limites,
a correcção ortográfica das minhas falhas.
 .
Quanto sustentas a minha serenidade
quando corro os dedos pelos teus sentidos,
substituindo o quartzo já gasto da minha memória
pela eficácia dos teus atributos,
pelo tacto dos teus arranjos algébricos,
para os ecos da palavra
e do suor das cinzas dos meus versos!
 ,
Meu bento computador
quanto bendigo os teus gestos de luz e cores
e o leque das tuas opções adequadas,
nas tons que imprimes no écran dos meus olhos,
na harmonia com que reescreves o acervo
das mil loucuras que trago debaixo das veias,
ou no exercício tecnológico da sintaxe.
que estendes pelas páginas já abertas.

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Tens o dom de inserir estilos de impressão
nos meus devaneios léxicos, prosaicos
suaves como águas que se enxugam nas areias do chão,
silêncios que arquivo no teu sistema de ficheiros
invioláveis, por meu capricho
e teu zelo sereno
na minha vontade
e meus caprichos perecíveis. 
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És a continuação da obra
feita formosura no espaço da página
e nunca me desvias do caminho aberto
com que suponho a arquitectura irregular
dum círculo de palavras, ou dum ciclo de sons
onde inscrevo as minhas dores irreveladas
que ciosamente escondes de olhos estrangeiros,
só acessíveis a quem saiba a palavra-
-passe
da morte adiada programada
da minha vida.
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E agora veja como ficou o vídeo!
.
 

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

OS CAMINHOS DA VIDA


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Os caminhos da vida trazem-me indícios
dum silêncio por desvendar.
 .
Na grande planície soa uma serenidade
sem bermas, como as iluminuras donde luz o sol
eterno olhando a terra com bonomia.
 .
Será esse o segredo das grandes travessias
indiferentes à resolução dos mistérios extensivos
do pó que cobre as árvores desfeitas
em turfa, fósseis modelados por milénios?
 -
Será esse o segredo que desconheço
ou ignoro, das vivências minúsculas dos seres simples
que apenas procuram um rastro de luz
para abençoar, cumprir os seus dias?

domingo, 26 de setembro de 2010

DESÍGNIO

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São os ventos a interpretar o verdadeiro desígnio destes campos,
migalhas de pó que se transportam ondeando as ervas e os matos
para um tempo breve, onde dispor um incêndio, junto ao corpo
das excessivas lembranças, no anónimo exílio das cidades.
 .
Quanto basta é o sossego dos lugares soltos ao festim do sol,
a asa dum insecto que se recorta no azul perdurável da terra.
 .
Assim me ensinaram os perfumes da urze, que chegam de longe,
o estorninho escondido dos olhares, desconfiado dos destinos.
.
E aqui reconheço, no chão caminho das águas, a serenidade
deste pastor imperturbável às formas fulgurantes do silêncio
que soa entre as árvores, o trânsito liberto, perpétuo, das seivas,
a exacta, útil degenerescência do conceito urbano de solidão.
 -
 em "Terrachã", ed. AJEA, 2004

sábado, 24 de abril de 2010

POEMA A UMA DEUSA TERRENA

Poemas de amor # 2
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Que te cubram as folhas do plátano
quando a tarde esmaece nos jardins
a claridade gasta em fins de outubro.

Que sejas a mais solene a mais alta
nas lonjuras da abstracta serenidade
nas glórias do incenso na abnegação.

Que sejas a mais firme a mais ágil
nos desfiladeiros rudes da montanha
na transparência na nudez da água
na fortuna na mágoa alheia.

E que te cubram os mistérios até ao fim
na estrada por onde adoro o teu regaço:
a interior presença cintilante, encoberta,
das palavras que ressoam nos meus olhos.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

DILEMA

Dicionário de Citações # 1
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.....“Se alguma vez quisermos ter um pouco
.....de conhecimento de qualquer coisa,
.....é necessário separar-nos dela e olhar
.....apenas com a alma, as coisas em si mesmas
”
.....Sócrates


É preciso olhar as coisas com uma cuidada distracção
distanciamento quanto baste, fora do seu quadro de referências,
as imagens que correm, que corrompem outras imagens,
formando abstracções, outras realidades concretas,
da mesma cor dos estratos geológicos, lâminas sobre lâminas
horizontais, nas raízes movediças da terra.


Esta discrição permite ao raciocínio um perfeito raios x
capaz de ler noções como tempo, silêncio, drama,
o patamar incontestado dos segredos guardados em altas torres
só conhecidos dos iniciados na ciência dos magmas da terra.


E permite mostrar como é possível a serenidade comovente
de apenas olhar, sem paixão pelos gelos dos altos cumes,
desligado do fervor endémico de ver crescer o trigo
ou conhecer o imediato destino dum pássaro caído de asa
sem procurar as suas origens, o dilema de ser coerente.

inédito