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terça-feira, 25 de setembro de 2012

A CINZA DA TARDE


A cinza da tarde é uma subtileza da luz
e do seu destino de fulgências breves;
o engenho das cores numa ilusão de cinzas
para o dia fugidio, para os seus esteios.
,
Esconde-se e esconde os seus trâmites,
o seu trânsito das palavras ditas,
um rosário de sons pronunciados
por lábios antigos, eruditos em fábulas,
mistérios de imaginar os seus termos.
 .
Penetra os olhos ágeis, simula o frio do ar,
a predestinação para a bruma dos ocasos,
dissimula a hábil vocação das flores
para o caminho da noite, sem ardis.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

POEMA A PIERRE CURIE


Poema a Pierre Curie   
.

Viveste entre a pecheblenda e os ácidos
entre os deleites de Maria e a ânsia
o frenesim activo dos metais.
 .
Buscavas os segredos da vida
feita mistério no coração duma pedra
muda quieta indecifrável
que vive de pequenos espasmos de energia
e brilha na escuridão dos séculos.
 .
O teu raciocínio era bom
trazia a justificação do ovo
o segredo mais íntimo das estrelas.
 .
Mas uma tarde partiste.
 .
Como toda a gente.
 .
Mas tu não partiste como toda a gente.
Morreste a pensar, a remoer o pensamento
a revolver a alma duma pedra.
 .
Por isso não morreste para sempre.
 .
Embora não contasses
que o distraído mecanismo duma roda
pudesse apagar nas estrelas,
o voo dum pássaro ao coração dum ovo.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

POEMA A UM MENIR


.
A pedra ali está, sereníssima,
há anos hibernada sem desespero,
à espera duns olhos comovidos
com quem reinventar os mistérios
da respiração tranquila dos matos.
 .Nota histórica:
Estão contabilizados mais de uma centena de menires, no Algarve. A maior parte encontra-se no Barlavento, na região de Sagres, por terra, certamente deitados ao chão pela mão do homem. Muitos deles devem ter sido eregidos, no final do Neolítico Europeu, entre 3000 e 4000 antes de Cristo e são símbolos pagãos. O seu significado continua envolta nalgum mistério, mas crê-se que poderiam assinalar locais sagrados virados para o culto da fecundidade, já que parecem ter sido concebidos como formas fálicas.
 .

 em ALGARVE ONTEM - o meu mais recente livro 

*Outros menires    aqui 
* Grato também pela preciosa colaboração de F. Castelo, que também remete para o seguinte link, sobre o assunto: aqui 

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

OS CAMINHOS DA VIDA


 -
Os caminhos da vida trazem-me indícios
dum silêncio por desvendar.
 .
Na grande planície soa uma serenidade
sem bermas, como as iluminuras donde luz o sol
eterno olhando a terra com bonomia.
 .
Será esse o segredo das grandes travessias
indiferentes à resolução dos mistérios extensivos
do pó que cobre as árvores desfeitas
em turfa, fósseis modelados por milénios?
 -
Será esse o segredo que desconheço
ou ignoro, das vivências minúsculas dos seres simples
que apenas procuram um rastro de luz
para abençoar, cumprir os seus dias?

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Poema aos Condenados

 -
Já não era possível voltar atrás,
nem era possível fitar o caminho passado
com a alegria de o ter vencido.
.
Agora todo o arco do céu se recobria das suas cores nítidas
com fantasmas de luz fátua, constelações austeras,
andrómeda e hidra,
ainda o mesmo mistério obscuro
calava as serpentes de sedução que se enroscavam nas árvores,
à beira da mais pura lídima transgressora alegria.
.
As póstumas metáforas de sol dardejavam desejos imprecisos,
obsessões ímpias, espectros.
-
Soava uma melodia melancólica que anunciava o principio do fim,
como se ouvíssemos um piano moribundo indo para os graves.
-
Agora tudo se resumia a um espasmo de nocturnas
efémeras mariposas despedaçadas ao calor do dia claro,
amaldiçoando os regressos da luz,
a luz coada etérea das estrelas que para sempre brilham nos céus
e que espalham os seus ocasos imperceptíveis vagarosos,
nos olhos dos condenados.

.
Inédito

terça-feira, 21 de setembro de 2010

O EDIFÍCIO DAS PALAVRAS

,
..........O edifício das palavras,
..........o projecto inerente à ideia
..........e aos degraus da leitura,
.
..........o processo linear dos sons
..........e dos afectos
.
..........um pouco de embriagues
..........para questionar as sombras e a luz
.
..........eis a explosão programada
.
..............o poema
.
..........a desobediência aos mistérios
..........no desassossego e na emoção
..........de dizer o indizível
-
..........à luz do dia.

domingo, 29 de junho de 2008

poema às memórias

.

São as memórias que sustentam

.

São as memórias que sustentam a leveza do ar,

num exercício renovado de mistérios lentos

anunciadores dos sonhos.

.

Vivem em nichos vagabundos

perto do ruído das ruínas,

longe dos rios que não descansam

no ombro da margem

num tempo para fruir a leveza dos malmequeres

abruptos dos caminhos.

.

Acendem-se noutras memórias

e refazem os aromas antigos,

as cores redundantes

da paisagem que flui, .já ontem.

:
Um dos meus poemas que saiu no nº 11 da série DiVersos, (colectivo) edições Sempre-em-pé, Verão de 2007.

:

Também com a chancela das Edições Sempre-em-pé vão ser apresentados o nº13 da série DiVersos e, ainda, os livros “Gloria Victis”, de Carlos Garcia de Castro e “Rio Abaixo, Rio Acima”, de Tobias Burghardt, edição bilingue português-alemão, com tradução de Maria de Nazaré Sanches, na Casa Fernando Pessoa, Campo de Ourique, em Lisboa. As apresentações têm lugar no dia 3 de Julho, às 18 horas. A entrada é livre.

Mais informações:

www.sempreempe.pt
contacto@sempreempe.pt

sexta-feira, 20 de junho de 2008

poema ao verão

:..
POEMA AO VERÃO
-

-
Vem ....Verão.... com pétalas de sol zunindo
a tarde ameaçada pelo incêndio da noite
súbita de harmonias, rasgada de ocultas aves
ciciando a espuma translúcida dos olhos,
devorada de penumbra.

.
Vem.... Verão.... coberto de sonhos rente ao rio
exausto, de vermes apodrecido
sob o hálito fugidio das folhas secas
– de sol e mistério breve –
num harpejo de searas e semente.

.
Vem.... Verão..... dócil sonâmbulo abrindo
as entranhas da terra grávida,
de secura e pólen amarela
em crepúsculos voando o inverno
num violino de cigarras.

em "O FRIO DOS DIAS", edição do autor, 1986

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

O EDIFÍCIO DAS PALAVRAS

....

..........O edifício das palavras,
..........o projecto inerente à ideia
..........e aos degraus da leitura,

..........o processo linear dos sons
..........e dos afectos

..........um pouco de embriaguês
..........para questionar as sombras e a luz

..........eis a explosão programada

..............o poema

..........a desobediência aos mistérios
..........no desassossego e na emoção
..........de dizer o indizível

..........à luz do dia.


.............................inédito

quarta-feira, 25 de julho de 2007

POEMA AOS CONDENADOS

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Já não era possível voltar atrás,
nem era possível fitar o caminho passado
com a alegria de o ter vencido.

Agora todo o arco do céu se recobria das suas cores nítidas
com fantasmas de luz fátua, constelações austeras,
andrómeda e hidra,
ainda o mesmo mistério obscuro
calava as serpentes de sedução que se enroscavam nas árvores,
à beira da mais pura lídima transgressora alegria.

As póstumas metáforas de sol dardejavam desejos imprecisos,
obsessões ímpias, espectros.

Soava uma melodia melancólica que anunciava o principio do fim,
como se ouvíssemos um piano moribundo indo para os graves.

Agora tudo se resumia a um espasmo de nocturnas
efémeras mariposas despedaçadas ao calor do dia claro,
amaldiçoando os regressos da luz,
a luz coada etérea das estrelas que para sempre brilham nos céus
e que espalham os seus ocasos imperceptíveis vagarosos,
nos olhos dos condenados.


Inédito