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quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

A NOSSA CASA


A nossa casa é um lugar ao vento, mas buscamos
o absoluto, a bárbara verdade duma onda sobre a praia.
 .
Tudo nos pertence porque guardamos na memória
os restos do apego às coisas que tivemos, os gestos
de gratidão que vimos no coração dos dias violentos.
 .
Esta época não é a nossa. Subverte os conceitos
do ânimo, os desígnios legítimos de plenitude
 .
Mas por isso ainda somos a centelha que arde devagar
na paisagem estreita de árvores estóicas, em momentos
de tempestade, na consciência das opções sublevadas.
.
em Transparências, ed AJEA

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Façamos hoje o mesmo gesto



 -
Façamos hoje o mesmo gesto delicado
dos nossos avós
 .
em memória dos princípios que regem
o propósito antigo
de plantar uma árvore onde havia outra árvore
no chão que persiste
 .
o projecto lhano do destino
de ir substituindo gerações por outras gerações
sobre a terra.
 .
Façamos esse mesmo gesto delicado
em memória dos nossos avós
e do seu propósito antigo de reger-se
por processos que persistiram desde os antigos
 .
que plantavam árvores para a ventura
de ver a terra coberta de flores e seus frutos
para seus filhos
 ,
filhos de seus gestos antigos dedicados
de ir plantando árvores
sobre a terra.

sábado, 2 de outubro de 2010

POEMA AO PÓ

  .
A redescoberta que é ver o pó, cheirar o pó,
cheirar a pó. É um rumor inerte, um retrato
tangível de outras memórias perfurantes,
um vazio entre azuis e baços no chão da terra
gritando segredos abatidos ao silêncio ileso.
.
Praticar a ciência do pó é viajar pelos gelos
da montanha, um texto insondável de signos
sobre a água, reminiscência doutras águas
de apenas a cognição nua, virgem, das fontes
.
é desvendar a erosão, o murmúrio de colunas
gregas, efémeras, a inocente exaltação das aves
assim que o sol reacende a festa inadiável

-
e contemplar uma indústria sem nome e sem data,
sem prólogo, divina, puríssima, demoníaca.

 .
em "Terrachã", ed. AJEA
 
  .

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

A NOSSA CASA

.

A nossa casa é um lugar ao vento, mas buscamos

o absoluto, a bárbara verdade duma onda sobre a praia.

.

Tudo nos pertence porque guardamos na memória

os restos do apego às coisas que tivemos, os gestos

de gratidão que vimos no coração dos dias violentos.

.

Esta época não é a nossa. Subverte os conceitos

do ânimo, os desígnios legítimos de plenitude.

.

Mas por isso ainda somos a centelha que arde devagar

na paisagem estreita de árvores estóicas, em momentos

de tempestade, na consciência das opções sublevadas.

.

em "Transparências", ed. AJEA

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

.......
Lembranças
......
,
Ainda restam uns pedaços do sonho
porque os sonhos perduram para além do sonho
porque a tua lembrança acende todas as lembranças
porque outras imagens murmuram a tua imagem.
.
É pois, o tempo das memórias,
da água que desliza sobre as águas
o vento que se dilui nos ares
a pedra petrificada restituindo a pedra.
.
Restos de palavras que dizem outras palavras,
de alegrias que imitam a alegria,
de pequenos silêncios no vazio silente
irrepetível do sonho
que fez de ti a tua imagem em outrem,
despedaçando-se,
até vir o ágil mar do sono.
,
em TRANSPARÊNCIAS, ed AJEA

domingo, 23 de setembro de 2007

POEMA AO PÓ

.
A redescoberta que é ver o pó, cheirar o pó,
cheirar a pó. É um rumor inerte, um retrato
tangível de outras memórias perfurantes,
um vazio entre azuis e baços no chão da terra
gritando segredos abatidos ao silêncio ileso.


Praticar a ciência do pó é viajar pelos gelos
da montanha, um texto insondável de signos
sobre a água, reminiscência doutras águas
de apenas a cognição nua, virgem, das fontes


é desvendar a erosão, o murmúrio de colunas
gregas, efémeras, a inocente exaltação das aves
assim que o sol reacende a festa inadiável

e contemplar uma indústria sem nome e sem data,
sem prólogo, divina, puríssima, demoníaca.