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sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Expirados são os Prazos

 .
Um dos poemas do meu livro
 .
"Por detrás das Palavras"
.
(esgotado em Portugal)
,
a sair brevemente, em S. Paulo, no Brasil
 .
Expirados são os prazos, expostas estão as certezas
dos migrantes da terra direito às profundezas
- a nossa mais delicada reflexão.

É breve o juízo que fazemos das coisas. Breve
a matéria conhecida dos afectos, das dúvidas,
para deduzir equações inteligíveis.

Sofremos a candura dum olhar benévolo
por cada passo, por cada aceno de mão
dum outro viandante que se perde na estrada,
às escuras dum novo dia
e entendemos nessa predestinação a nossa luta.

Mas o caminho foi rasgado num golpe de vento
numa ravina cheia de indícios de fogo morto
num rio indolente que sabe o vigor do mar,
as rédeas dum chicote brandido à noite.

Percebemos o milagre violento dos magmas
por ver as cinzas jazidas nos corpos ardentes,
ao nascer da aurora inquieta das palavras.

Experimentamos o encolerizar das últimas
vozes da terra, nuas de desespero,
frias de lembranças destroçadas e acesas
pelo sal cristalizado num deserto de água.

Mas somos o nosso último pretexto para amar a terra
e os seus enigmas instintivos mas obscuros,
com que descrevemos a laboriosa seiva das árvores.
 ,
em "Por detrás das Palavras", Edição Beco dos Poetas, S. Paulo

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

NAS LADEIRAS

.......
    Nas ladeiras procuramos a utopia 
....que nivelou o chão das nossas vidas, 
....o sol em promontórios procuramos
....para acalentar parábolas do amor.

....Procuramos a tranquilidade no delírio
....de interpretar enigmas perduráveis,
....mas o nosso destino alado só achamos
....na cerimónia dum beijo peregrino.

....Assim nos cercamos de águas frias
....caindo sobre a fronte desde a noite
....e morremos de mortes mal vividas
....pela vida que tivemos nos caminhos.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

DO QUE EU GOSTO

 .
(Da autenticidade à metáfora)
.
Do que eu gosto é da chuva e do vento,
tremores de terra, relâmpagos
que enchem os céus de luz e dúvida,
e enlevo, pela extraordinária energia
que fez a vida dos bichos maiores
e dos bichos menores,

,
ah, como eu gosto das tempestades
de neve e de areia,
os vulcões a jorrar
as entranhas do magma!
,
Também gosto dos sóis violentos do sul,
as enxurradas do rio
trazendo a lama e o húmus,
as árvores e o inverno
antes da primavera doutras ervas.
,
O que eu não gosto é ver
meninos de áfrica de pés trucidados
por granadas
e bombas B 52,
napalm,
odeio.
.
O que eu gosto é do sabor violento
dos grandes temporais do mar
galgando a terra
com as suas enormes cores de frescura
e fantasia,

.
o frio árctico das montanhas
dum deserto árido,
no meio duma floresta tropical,
adoro.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

POEMA À CASA

casas# 4
.

-

Estes muros são a nossa casa,

o modo austero de preservar

o tecto para as chuvas e o vento,

onde encontrar um refúgio, o alento

para dizer as palavras indizíveis.

-

Aqui coabitamos com as dúvidas

que escondem um instante efémero,

uma noção solene do nosso tempo breve

para discorrer sobre os acasos.

-

Transpiramos as sombras espessas

que chegam depois da exígua claridade

ofuscando o brilho dos nossos olhos

-

para que o amanhã de novo se construa

por cima dos nossos restos da luz morta.

.

- em "Causas de Habituação", em preparação


domingo, 30 de março de 2008

POEMA JUNTO AO MAR

.


A amiga sophiamar, administradora do blog a ver o mar, teve a gentileza de elaborar uma postagem sobre um poema meu e, mais, compor a cena com a minha fotografia e excertos de alguma da minha biografia patente no livro “Escritores Portugueses do Algarve”. O poema agora transcrito foi um dos que a Professora Ilena Gonçalves seleccionou para a citada antologia, editada pelas prestigiadas edições Colibri, em 2006. Aqui fica o poema, e o meu muito obrigado à sophiamar, pela cortesia.

JUNTO AO MAR

Sempre encontrei a plenitude na plenitude junto ao mar.
Talvez (e talvez seja a palavra imprecisa por excelência/
assim uma irremediável certeza na dúvida certa/
um latejar súbito apressado inquieto coração/
ao impulso da adrenalina/) talvez, dizia,
junto ao mar sinta eu o ruído da terra o mais profundo
confundindo-se com o do mar
e com este o do meu pulsar inquieto coração
que trago debaixo destes olhos de horizontes.

Junto ao mar, talvez (porque o mar foi – e é –
o princípio das coisas e se prolonga
por subsequente cadência ou consequente inércia)
talvez, dizia, tenha eu o inconsciente lampejo
de omnisciente consciência abarcando o todo
a terra e o mar, e o meu ser de água e pó,
a inconsciente consciência que traz a plenitude
que só encontro plenamente na plenitude junto ao mar.

E ele aí está – mar, ó mar que vens das raízes do sal/
que mantém em equilíbrio o desequilíbrio constante
do meu sangue/ mar onde se acalma o desassossego
dos meus dias inquietos/ mar onde descanso o olhar
olhando olhando apenas a tua imensidade ó mar.

Ou talvez apenas,
talvez
porque eu tenha nascido junto ao mar.

Poema originariamente publicado em "Como um Relógio de Areia", ed. Mic, 1988