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quinta-feira, 7 de junho de 2012

O INSTIGADOR


           O poeta só escreve o que ninguém sabe
         só espera o que nunca pode dar-se
         o milagre que não virá a repetir-se
         o que nunca tampouco tem sentido
        
         o poeta conhece as cores pelo cheiro
         as formas pelo tempo
         o grito pelo tacto

         o poeta escapa entre os dedos
         é um peixe paleocénico
         o poeta chora em língua estrangeira

         o poeta só não acredita no que crê
         é um sábio geómetra doutras dimensões
         de mundos paralelos que são planos
         oblíquos, como espinhos no interior da casa
         só sabe da eterna ressurreição da palavra
         na transmutação lunar dos dias 
                                              
         feito eco de fragrâncias mágicas
         só crê na fraterna limpidez das seivas
         na concreta viuvez dum líquen

         o poeta é um bicho instigador
         demolidor

         quando sai à rua alimenta-se do ar
         come pedras e pó
         corre a cidade com os lábios cerrados
         atrasa o abismo dos horários
         e só embarca em navios com árvores por dentro
         e pássaros nos remos
         direito ao grande mar da obscuridade
         e da ciência abstracta dum beijo
        
         O poeta não tem medo da chuva
         nem de tremores de terra
         mesmo com o ágil vento sobre a cabeça
         o poeta sai descalço
         avança sem medo por entre as pedras
         porque nas pedras reconhece os cristais
         e a lama
         o poeta respira pelos poros
         dos ouvidos
         e é com os ouvidos que compõe
         a música matinal perpétua
         que traz nos olhos.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Expirados são os Prazos

 .
Um dos poemas do meu livro
 .
"Por detrás das Palavras"
.
(esgotado em Portugal)
,
a sair brevemente, em S. Paulo, no Brasil
 .
Expirados são os prazos, expostas estão as certezas
dos migrantes da terra direito às profundezas
- a nossa mais delicada reflexão.

É breve o juízo que fazemos das coisas. Breve
a matéria conhecida dos afectos, das dúvidas,
para deduzir equações inteligíveis.

Sofremos a candura dum olhar benévolo
por cada passo, por cada aceno de mão
dum outro viandante que se perde na estrada,
às escuras dum novo dia
e entendemos nessa predestinação a nossa luta.

Mas o caminho foi rasgado num golpe de vento
numa ravina cheia de indícios de fogo morto
num rio indolente que sabe o vigor do mar,
as rédeas dum chicote brandido à noite.

Percebemos o milagre violento dos magmas
por ver as cinzas jazidas nos corpos ardentes,
ao nascer da aurora inquieta das palavras.

Experimentamos o encolerizar das últimas
vozes da terra, nuas de desespero,
frias de lembranças destroçadas e acesas
pelo sal cristalizado num deserto de água.

Mas somos o nosso último pretexto para amar a terra
e os seus enigmas instintivos mas obscuros,
com que descrevemos a laboriosa seiva das árvores.
 ,
em "Por detrás das Palavras", Edição Beco dos Poetas, S. Paulo

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

PAISAGEM

.
Percorro esta paisagem com os olhos
e vejo grandes árvores perfiladas contra o vento,
mas o vento é a luz que esvanece nos meus olhos
as árvores que não vejo como vejo ou imagino.

Nos meus olhos há florestas
ervas que se erguem para ser árvores
no seio interior da paisagem,
esta paisagem que eu percorro com os olhos.

E é esse o caminho liberto a esvoaçar em bandos de aves
que vêm de longe, donde o vento sopra
o ânimo dum milagre feito mágica
de azuis e verdes no cinzento da minha terra.


inédito