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terça-feira, 31 de julho de 2012

Barca


16 - BARCA
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Contemplar esta imagem, esta barca doutros séculos,
essas personagens concretas que viveram outras vidas,
outras balbúrdias de céus e mar, sob o tecto exíguo
dum amanhecer limpo de comparanças a outros tempos
   ~.
navegando a sóis e luas, ventos de sueste a norte
e marés de angústia ou fé na crença dos presságios
que liam nas cores inscritas em sinais do céu nocturno
ou em búzios que luziam promessas de corvinas e robalos.
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Contemplar esta imagem é navegar estas águas, a crença
que presidia aos destinos, para sempre desprendida
duma onda que veio de longe aqui morrer, junto à praia
onde se extingue a luz que desce devagar sobre os olhos.

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16 - Barca. Foi numa barca que o diabo de Gil Vicente carregou os vários personagens da Trilogia das Barcas, dos quais, após a crítica moral de cada um, apenas deixou passar para a barca do Paraíso quatro cavaleiros que morreram combatendo e um parvo que não errou por maldade.
Era também numa mitológica barca que Caronte, o barqueiro dos infernos, para aí transportava as almas dos mortos através do Estige, rio que rodeava esses mesmos infernos.
Mas aqui, neste mundo, nesta terra, mais feliz e mais real, foi também em barcas que, em bons tempos, se carregavam os nossos frutos secos para exportação e se descarregava muito esparto e muita palma, com que se faziam as nossas úteis e indispensáveis alcofas e demais artefactos, cuja utilidade actualmente se limita a ser “souvenir” do visitante estrangeiro, mas que para nós ainda funciona como souvenir-saudade de genuínos tempos passados.
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em LAGOS ONTEM, 2ª Edição da Câmara Municipal de Lagos
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Esta e as outras notas históricas e toponímicas do livro, são de José Paula Borba