A redescoberta que é ver o pó, cheirar o pó,
cheirar a pó. É um rumor inerte, um retrato
tangível de outras memórias perfurantes,
um vazio entre azuis e baços no chão da terra
gritando segredos abatidos ao silêncio ileso.
.
Praticar a ciência do pó é viajar pelos gelos
da montanha, um texto insondável de signos
sobre a água, reminiscência doutras águas
de apenas a cognição nua, virgem, das fontes
.
é desvendar a erosão, o murmúrio de colunas
gregas, efémeras, a inocente exaltação das aves
assim que o sol reacende a festa inadiável -
e contemplar uma indústria sem nome e sem data,
sem prólogo, divina, puríssima, demoníaca.
..........O edifício das palavras, ..........o projecto inerente à ideia ..........e aos degraus da leitura, . ..........o processo linear dos sons ..........e dos afectos . ..........um pouco de embriagues ..........para questionar as sombras e a luz . ..........eis a explosão programada . ..............o poema . ..........a desobediência aos mistérios ..........no desassossego e na emoção ..........de dizer o indizível - ..........à luz do dia.
....... Nas ladeiras procuramos a utopia ....que nivelou o chão das nossas vidas, ....o sol em promontórios procuramos ....para acalentar parábolas do amor.
....Procuramos a tranquilidade no delírio ....de interpretar enigmas perduráveis, ....mas o nosso destino alado só achamos ....na cerimónia dum beijo peregrino.
....Assim nos cercamos de águas frias ....caindo sobre a fronte desde a noite ....e morremos de mortes mal vividas ....pela vida que tivemos nos caminhos.
Do que eu gosto é da chuva e do vento,
tremores de terra, relâmpagos
que enchem os céus de luz e dúvida,
e enlevo, pela extraordinária energia
que fez a vida dos bichos maiores
e dos bichos menores, ,
ah, como eu gosto das tempestades
de neve e de areia,
os vulcões a jorrar
as entranhas do magma! ,
Também gosto dos sóis violentos do sul,
as enxurradas do rio
trazendo a lama e o húmus,
as árvores e o inverno
antes da primavera doutras ervas. ,
O que eu não gosto é ver
meninos de áfrica de pés trucidados
por granadas
e bombas B 52,
napalm,
odeio. .
O que eu gosto é do sabor violento
dos grandes temporais do mar
galgando a terra
com as suas enormes cores de frescura
e fantasia, .
o frio árctico das montanhas
dum deserto árido,
no meio duma floresta tropical,
adoro.
O perfil duma velha árvore enche-nos de alegria. ,
A sua sombra traz-nos a presença tranquila da terra,
a forma da própria Terra, a sua frescura fraterna. .
É uma pátria renovada de palavras anunciadas, lidas
nas vozes do rio, nas rotas do sol transbordante; .
ela restitui os desvelos relembrados desde infância,
a cândida explicação dos perfumes pronunciados
noutros tempos imateriais, mágicos de plenitude; .
traz a serenidade neutra, a harmonia dos outonos
na imagem dum rebanho que regressa pela tarde,
nas chuvas temporãs próprias do cheiro do barro,
a secular legítima ideia dum tecto restaurado; .
organiza os enxames, une os sons do ar instável,
esvanece o orvalho vagaroso deslizante do corpo. .
O colo duma velha árvore é o sonho duma criança
perpetuando a redobrada paz, e acende na água
rumorejante das fontes a sedução dos pássaros. . em Terrachã, ed. AJEA
........-..O edifício das palavras, ..........o projecto inerente à ideia ..........e aos degraus da leitura, , ..........o processo linear dos sons ..........e dos afectos . ..........um pouco de embriagues ..........para questionar as sombras e a luz . ..........eis a explosão programada . ..............o poema . ..........a desobediência aos mistérios ..........no desassossego e na emoção ..........de dizer o indizível . ..........à luz do dia.
mas não ri nem chorei. . Comecei como se começa, nem devagar nem depressa. . Comecei como se termina. , Começar e acabar é mesma sina. . Não vale a pena ter pressa...
Entender o mecanismo do vento, o seu carácter transitório,
o caminho das pétalas duma flor sobre um vidro transparente
que reflecte a imagem do próprio frio do vidro colado ao tempo
.
é um acto que pressupõe a elaboração cuidada dum inventário
das causas remotas, um roteiro para o exacto declive das águas
que vêm da montanha, coabitando na terra, unindo-se à terra.
.
Essa é a verdadeira ciência dos musgos e do pólen que alaga
os nossos olhos com círculos irisados de sol, que transfigura
o nome que se dá a uma maçã, mesmo se na forma duma pedra;
e dessa textura é a frágil química dos sonhos, da predestinação
das noites caindo devagar sobre as nossas mãos demoradas,
a sua eterna transfiguração, o ciclo da água, o círculo do planeta.