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sexta-feira, 1 de abril de 2011

UM POEMA


Em S. Paulo

 ,
Do meu livro "Por detrás das Palavras", 
recentemente publicado no Brasil, um poema. 
.
Como não havemos de questionar este mundo,
as suas estrelas transgressoras, na aventura temível
de erigir uma flor e destruí-la com um bafo de vento
vindo duma ciência longínqua, um destino indecifrável?
.
É nestes fósseis da pedra, que se lê a impressão digital
dum crepúsculo, uma lâmina de vertigens breves,
ah, um deus ignorante da plenitude do amor terreno,
amor que não se esgota com a morte das espécies.
-
Como deveremos interpretar as manifestações
de apego à terra, dos humildes bichos da terra,
uma fogueira inextinguível que há-de ver-se ao longe
quando se apagarem os últimos restos do sol?
-
.

domingo, 20 de março de 2011

A FLOR

 .
A flor sobre o plano branco,
a palavra no meio doutras palavras brancas
de cores e chamas
 .
ou o fruto maduro entre a folhagem
verde
.
novo de sabores ignorados
 .
e aquelas mãos
o teu corpo de mulher entre as mulheres
o pano brando onde aprendo
a cor melhor das flores
e sabores.
 -

em Soltos & Dispersos, 2º livro

quinta-feira, 17 de março de 2011

EM S. PAULO


8º  SARAU POÉTICO DO BECO DOS POETAS

20 de Março,
das 10hs ás 12hs.

Apresentação do livro
-
“POR DETRÁS DAS PALAVRAS”,
(esgotado em Portugal)
do poeta português Vieira Calado
 -
E como sempre, é uma grande alegria 
ver você lendo ou declamando sua poesia, 
falando de suas conquistas literárias e compartilhando conosco.
Contamos com sua presença no Dia 20 de Março, 
será um Domingo de alegria e muita Poesia, 
 você não pode faltar!
-
CEU Caminho do Mar
Av. Engº Armando de Arruda Pereira, 5.241- Jabaquara-SP
                             tel. 011-5021-2233                                                         

quarta-feira, 9 de março de 2011

AS COISAS


 .
Olho demoradamente as coisas
que me rodeiam.
 .
Elas aí estão, paradas, em seu esplendor
de existir
no seu tempo de lugar absoluto.
 .
Mas apenas consomem o tempo -
o meu questionar
no seu esplendor parado,
como um poema escrito
e nunca verdadeiramente entendido.
. 
inédito

quinta-feira, 3 de março de 2011

sonho



Adormeci a contar-lhe uma história.
 -
Uma estória antiga da cidade
uma estória que ele diz que não conhece
mas vejo-o a sorrir
com um sorriso de menino embevecido
 -
e só então vejo
que ele já morreu
 .
mas no meu sonho
sorri como se ainda cá estivesse
ao ouvir aquela estória da sua cidade
como se ainda cá estivesse
como se ainda cá estivesse.
 .
inédito

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

AS CORES DO POEMA - 2ª série

O Frio dos Dias
Este quadro pertence à 2ª série da exposição 
"As Cores do Poema".
A 1ª série continua em exposição no Artebúrguer,
Praia da Luz, até 15 de Março.
.
Em exposição os quadros são em A3, com passe-partout e moldura.
* para a ilustração do poema foram utilizados apenas meios informáticos.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Expirados são os Prazos

 .
Um dos poemas do meu livro
 .
"Por detrás das Palavras"
.
(esgotado em Portugal)
,
a sair brevemente, em S. Paulo, no Brasil
 .
Expirados são os prazos, expostas estão as certezas
dos migrantes da terra direito às profundezas
- a nossa mais delicada reflexão.

É breve o juízo que fazemos das coisas. Breve
a matéria conhecida dos afectos, das dúvidas,
para deduzir equações inteligíveis.

Sofremos a candura dum olhar benévolo
por cada passo, por cada aceno de mão
dum outro viandante que se perde na estrada,
às escuras dum novo dia
e entendemos nessa predestinação a nossa luta.

Mas o caminho foi rasgado num golpe de vento
numa ravina cheia de indícios de fogo morto
num rio indolente que sabe o vigor do mar,
as rédeas dum chicote brandido à noite.

Percebemos o milagre violento dos magmas
por ver as cinzas jazidas nos corpos ardentes,
ao nascer da aurora inquieta das palavras.

Experimentamos o encolerizar das últimas
vozes da terra, nuas de desespero,
frias de lembranças destroçadas e acesas
pelo sal cristalizado num deserto de água.

Mas somos o nosso último pretexto para amar a terra
e os seus enigmas instintivos mas obscuros,
com que descrevemos a laboriosa seiva das árvores.
 ,
em "Por detrás das Palavras", Edição Beco dos Poetas, S. Paulo

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

OS CAMINHOS DA VIDA


 -
Os caminhos da vida trazem-me indícios
dum silêncio por desvendar.
 .
Na grande planície soa uma serenidade
sem bermas, como as iluminuras donde luz o sol
eterno olhando a terra com bonomia.
 .
Será esse o segredo das grandes travessias
indiferentes à resolução dos mistérios extensivos
do pó que cobre as árvores desfeitas
em turfa, fósseis modelados por milénios?
 -
Será esse o segredo que desconheço
ou ignoro, das vivências minúsculas dos seres simples
que apenas procuram um rastro de luz
para abençoar, cumprir os seus dias?

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

SEM TÍTULO III


.
Tudo o que se ilumina se desfaz.
,
Só a água perdura
no seio do mar
.
como as palavras ditas
por dentro das palavras.

em "POEMETOS", livro II
em preparação


sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Poema aos Condenados

 -
Já não era possível voltar atrás,
nem era possível fitar o caminho passado
com a alegria de o ter vencido.
.
Agora todo o arco do céu se recobria das suas cores nítidas
com fantasmas de luz fátua, constelações austeras,
andrómeda e hidra,
ainda o mesmo mistério obscuro
calava as serpentes de sedução que se enroscavam nas árvores,
à beira da mais pura lídima transgressora alegria.
.
As póstumas metáforas de sol dardejavam desejos imprecisos,
obsessões ímpias, espectros.
-
Soava uma melodia melancólica que anunciava o principio do fim,
como se ouvíssemos um piano moribundo indo para os graves.
-
Agora tudo se resumia a um espasmo de nocturnas
efémeras mariposas despedaçadas ao calor do dia claro,
amaldiçoando os regressos da luz,
a luz coada etérea das estrelas que para sempre brilham nos céus
e que espalham os seus ocasos imperceptíveis vagarosos,
nos olhos dos condenados.

.
Inédito

sábado, 22 de janeiro de 2011

AS CORES DIZEM O TEMPO



.As cores dizem o tempo,
.o granizo que embranquece as arestas do granito,
.o hortelã respirando pequenas flores de sabor a sul.

.Ó a antiga sapiência das árvores
.e dos caminhos
.e da plenitude nas planícies de verdura!

.Como não hei-de segredar o teu nome
.ó bonina de incenso, em noites de paixão,
.nos pântanos que parecem eternizar os teus segredos?

.És o pólen e a cegueira
.de espirais hipnóticas de paz e medo,
.em águas nascentes de musgo e de frescura.

.És a vertigem duns olhos feridos pelo orvalho
.das manhãs, ao cair da tarde
.e eu te invoco na busca dos limites
.que fazem o fascínio, a vigília perturbada
.do teu violoncelo tocando ao vento.

domingo, 2 de janeiro de 2011

POEMAS ILUSTRADOS (6)

MARINHEIRO


 .
Este é um dos quadros da minha 
1ª Exposição de Poesia Ilustrada, 
concebida apenas por meios informáticos.
A Exposição será inaugurada no Espaço Cultural Artebúrger, 
Praia da Luz (Lagos), no dia 15 de Janeiro, pelas 17 horas.
.
Na mesma data será apresentado o opúsculo "As Cores do Poema", 
que contém os poemas integrais e as miniaturas dos quadros.
.
* Os quadros, em formato A3, têm moldura e passe-partout.

domingo, 26 de dezembro de 2010

NO ANO 3000

 .
No ano 3000
aquele burro triste do prado verde
aquele burro pardo preso ao círculo verde
da corda antiquíssima
enfim    virá nas patas livres
percorrendo o prado imenso
.
No ano 3000
na minha rua
a relva tenra de entre as pedras florescendo
cobrirá especiosa em manto verde
as pedras variadas que hoje piso
.
No ano 3000
no sol     a máquina dos átomos   
..estável  
….consciente
apenas pulsará no éter do sistema
as partículas + ou – que precisa o ciclo dos dias
para ser
.
No ano 3000
irmãos iremos mudos no silêncio
as mãos em flor cobrindo o mundo imenso
imenso verde enorme e verde
que eu já não vejo
...tão perto e longe de ver que já não vejo
mas quero e creio e vejo e penso
….ah pobre de mim
o verde o verde o verde imenso
.
em POEMA PARA HOJE
 .
 DESEJO UM BOM ANO DE 2011
. 
PARA TODOS OS MEUS ESTIMADOS LEITORES
 .

domingo, 19 de dezembro de 2010

POEMA DE NATAL

 .
Vem das profundezas da memória do fim das trevas
um caminho mítico para os exercícios da alegria
do barro ainda mole dos objectos.
.
Assim o pressentimos com fogos de encantamento
a enorme plenitude do orvalho das manhãs.
.
Talvez nos enredemos em ludíbrios ágeis
pela cerimónia de louvar a imagem virtual dum deus
em seu nicho distante negligenciando as vozes da planície
.
mas vale a pena tentarmos nós próprios a utopia
porque os deuses estão longe delidos noutros dilemas
noutras abstractas equações inatingíveis
porventura ainda mais utópicas que as nossas.
.
Diremos Natal como se diz um bálsamo
ou um violino tangendo as cores dum perdido chão
testemunhando os alicerces duma fogueira na água
e no pó do nosso destino também um murmúrio incerto
alheio à vontade transparente das estrelas.
. 
DESEJO UM FELIZ NATAL 
A TODOS 
OS MEUS ESTIMADOS LEITORES

domingo, 12 de dezembro de 2010

O MECANISMO DO VENTO

.
Entender o mecanismo do vento, o seu carácter transitório,
o caminho das pétalas duma flor sobre um vidro transparente
que reflecte a imagem do próprio frio do vidro colado ao tempo
.
é um acto que pressupõe a elaboração cuidada dum inventário
das causas remotas, um roteiro para o exacto declive das águas
que vêm da montanha, coabitando na terra, unindo-se à terra.
.
Essa é a verdadeira ciência dos musgos e do pólen que alaga
os nossos olhos com círculos irisados de sol, que transfigura
o nome que se dá a uma maçã, mesmo se na forma duma pedra;

e dessa textura é a frágil química dos sonhos, da predestinação
das noites caindo devagar sobre as nossas mãos demoradas,
a sua eterna transfiguração, o ciclo da água, o círculo do planeta.
.
em Terrachã, ed. AJEA