Poemas de amor # 2 . . Que te cubram as folhas do plátano quando a tarde esmaece nos jardins a claridade gasta em fins de outubro.
Que sejas a mais solene a mais alta nas lonjuras da abstracta serenidade nas glórias do incenso na abnegação.
Que sejas a mais firme a mais ágil nos desfiladeiros rudes da montanha na transparência na nudez da água na fortuna na mágoa alheia.
E que te cubram os mistérios até ao fim na estrada por onde adoro o teu regaço: a interior presença cintilante, encoberta, das palavras que ressoam nos meus olhos.
quinta-feira, 15 de abril de 2010
.... ....Hoje comecei, .....mas não ri ....nem chorei. . ....Comecei ....como se começa, ....nem devagar ....nem depressa. . ....Comecei ....como se termina. . ....Começar e acabar ....é mesma sina. . ....Não vale a pena ter pressa... . . .......em "Poemas Primeiros". Ed. AJEA - (reedição)
Porque todo o texto literário tem a sua história, veio-me à ideia, revelar as razões que levaram à escrita do poema, desta postagem.
O facto poético que inspirou o texto, é dos domínios do reconto oral.
A estória é simples:
um velho almirante, de visita à cidade, pediu a um amigo para o levar ao Cabo de S. Vicente.
Aí chegados, com o esboço dum sorriso a bailar-lhe nos olhos durante uns instantes, o almirante olhou em silêncio a imensidade daquele mar redondo, e depois disse em voz contida e embargada:
– João... é a última vez que vejo este cão!...
Voltaram para Lagos e pouco depois, o velho lobo do mar morria.
. * * * ...
Olhava pela última vez o mar
porque ontem é a abstracção da ambiguidade
e a última vez já é hoje
no vácuo de ontem, sem sofisma ou bruma.
. Olhava-o e sorria
não fora ele ainda uma criança
sem medos, sem o drama
de olhar o mar pela última vez.
. Aí nascera
sabia-o há milhões de anos
depois do colapso dos dias .,
como o vento das searas
e a nuvem que esbate o céu . na onda que dissolve as noções de tempo
nos silêncios, na bruma da claridade .
a abstracção de ontem
a última vez a ver o mar em seu silêncio
. o colapso do tempo já hoje.
. - Abraçar o acto no seu corpo, no seu leito, soprar-lhe a leveza rosa dum aroma, enquanto dorme em sonhos a substância desta vida noutras vidas, ou noutros mundos de outras vidas. . Refazer a doçura tranquila das manhãs interiores, o fio de luz que dá voz ao dia por onde se estende o legítimo anseio das aves , e em gestos de outros rostos esbatidos e uma pequena imagem de lembranças, regressar à mágica simplicidade das origens, a pureza chã, rústica, do aroma virginal. . Publicado emTRANSPARÊNCIAS,Ed. AJEA
. Do que eu gosto é da chuva e do vento, tremores de terra, relâmpagos que enchem os céus de luz e dúvida, e enlevo, pela extraordinária energia que fez a vida dos bichos maiores e dos bichos menores, . ah, como eu gosto das tempestades de neve e de areia, os vulcões a jorrar as entranhas do magma!
Também gosto dos sóis violentos do sul, as enxurradas do rio trazendo a lama e o húmus, as árvores e o inverno antes da primavera doutras ervas.
O que eu não gosto é ver meninos de áfrica de pés trucidados por granadas e bombas B 52, napalm, odeio.
O que eu gosto é do sabor violento dos grandes temporais do mar galgando a terra com as suas enormes cores de frescura e fantasia, o frio árctico das montanhas dum deserto árido, no meio duma floresta tropical, adoro.
. É nos caminhos do mar, na estrutura mutante do seu programa de memórias, de murmúrios
é no testemunho da transparência das águas na sua dimensão ecuménica, admirável de unir o sangue e os bálsamos apetecíveis
que nos banhamos numa vertigem de ludíbrios trazendo as neblinas e o cheiro forte da luz de meridianos horizontes, uma voz bilingue para as apetências da plenitude, do equilíbrio instável da nossa instante intranquilidade.
E é pelo mar que nos vinculamos à terra que entendemos o cheiro acre da terra e seus crisântemos repletos de inocências para o reanimar do nosso berço anfíbio a praia onde havemos de viver e morrer.
Em exposição o quadro terá as dimensões dum A 3. .
Acabado de executar em 24 de Fevereiro de 2010 . * * * . À ATENÇÃO DOS LACOBRIGENSES. No próximo Sábado, dia 6 de Março, pelas 17 horas e 30, será apresentado em Lagos, na Biblioteca Municipal, o meu 18º livro de poesia "Viagem Através da Luz". Sobre a obra e o autor dissertará a Professora Maria Antónia Vargas. . O livro foi originariamente apresentado na Livraria Barata, em Lisboa e depois, pelo Doutor Vilhena Mesquita, no Pátio das Letras, em Faro. Esse texto de apresentação, pode ser lidoaqui.
Dicionário de Citações # 1 . .....“Se alguma vez quisermos ter um pouco .....de conhecimento de qualquer coisa, .....é necessário separar-nos dela e olhar .....apenas com a alma, as coisas em si mesmas” .....Sócrates
É preciso olhar as coisas com uma cuidada distracção distanciamento quanto baste, fora do seu quadro de referências, as imagens que correm, que corrompem outras imagens, formando abstracções, outras realidades concretas, da mesma cor dos estratos geológicos, lâminas sobre lâminas horizontais, nas raízes movediças da terra.
Esta discrição permite ao raciocínio um perfeito raios x capaz de ler noções como tempo, silêncio, drama, o patamar incontestado dos segredos guardados em altas torres só conhecidos dos iniciados na ciência dos magmas da terra.
E permite mostrar como é possível a serenidade comovente de apenas olhar, sem paixão pelos gelos dos altos cumes, desligado do fervor endémico de ver crescer o trigo ou conhecer o imediato destino dum pássaro caído de asa sem procurar as suas origens, o dilema de ser coerente.
Contemplemos esta imagem, esta barca doutros séculos,
essas personagens concretas que viveram outras vidas,
outras balbúrdias de céus e mar, sob o tecto exíguo
dum amanhecer limpo de comparanças a outros tempos
.
navegando a sóis e luas, ventos de sueste a norte
e marés de angústia ou fé na crença dos presságios
que liam nas cores inscritas em sinais do céu nocturno
ou búzios que luziam promessas de corvinas e robalos.
.
Contemplar esta imagem é navegar estas águas, a crença
que presidia aos destinos, para sempre desprendidos
duma onda que veio de longe aqui morrer, junto à praia
onde se extingue a luz que desce devagar sobre os olhos.
.
em ALGARVE ONTEM, a publicar O livro terá um Prefácio de Vilhena Mesquita, Professor da UAlg
e Notas Etnográficas de Brazão Gonçalves (o autor do Dicionário do Falar Algarvio)
Um dos quadros da exposição, inaugurada no pretérito dia 17, que ficará patente ao público,durante um mês, no Pátio das Artes, em Faro. . VEJA OUTROS, MAIS ABAIXO.
. Percorro esta paisagem com os olhos e vejo grandes árvores perfiladas contra o vento, mas o vento é a luz que esvanece nos meus olhos as árvores que não vejo como vejo ou imagino.
Nos meus olhos há florestas ervas que se erguem para ser árvores no seio interior da paisagem, esta paisagem que eu percorro com os olhos.
E é esse o caminho liberto a esvoaçar em bandos de aves que vêm de longe, donde o vento sopra o ânimo dum milagre feito mágica de azuis e verdes no cinzento da minha terra.
Em Exposição, formato A3 . Um dos quadros da minha 4ª exposição de poesia experimental/visual, a ser inaugurada no dia 17 de Janeiro, no Páteo das Letras, em Faro. .
A minha vida é o que eu penso que é a minha vida,
um golpe de vento o que eu penso ser um golpe de vento.
Vejo no vaivém das ondas apenas a ligeireza das ondas,
a mesma sensualidade das areias que arrastam o vento
e por ele se deixam arrastar numa profunda comunhão
como a água que cai sobre as águas, sem angústia. E nunca me arrependo de olhar o azul, fazer um gesto de vigiar o céu, à procura duma estrela imperturbável
apenas a dizer que está ali, longe, contemplando a terra.
. .em Transparências, ed. AJEA .