Naquela noite fazia frio fazia pena
ver almas despedaçadas deitadas corpos entrouxados
dispersos nas calçadas luzidias do passeio das ruas
.
Caía uma névoa fina que simulava chuva punhais
de raiva e resignação ou antes uma levada de mágoa
de murmúrios sem data sem fumo sem restos de cio
perdidos num mar de pedras nas calçadas da rua
.
Era uma noite de claustros tambores rufando clamando
os clamores da vida a náusea descrente na boca sofrida
o granito fundido já duro das lutas perdidas
pisado nos ossos nos ombros nos olhos que olham
as coisas por fora nas coisas por dentro
e as noites nos dias e os búzios na praia sem vento
soprando as pedras do passeio da rua
.
Doía a quem doía não fora a noite uma noite
de aprazimento em todas as aldeias da cidade
tempo de alegrias acepipes farturas alvarinho
em casas abastadas sobranceiras aos passeios da rua
.
o mais vago grave desígnio dum oráculo de plenitude
na inocência das crianças nas crenças na sentença
dos mecanismos que levam ao enternecimento
por ver a chuva a cair sobre corpos alheios
prostrados enrodilhados no manto do passeio das ruas.
..... ...... A passagem das horas o perpassar dos dias o lento fervilhar do tempo em seus artifícios de claridade e sombras . trazem-nos a este lugar preciso de quietude em ondulações de silêncio e apaziguamento. . É aqui onde deveremos reaprender os festejos da luz . a sombra do pecado original dos fascínios pelo regresso urgente a nossa casa. . inédito
Esta minha postagem 19 de Outubro, requer alguma informação suplementar.
Não é uma explicação do poema, porque o poeta não tem que explicar o que escreve. O poema, por si, deve ser suficiente e explicar-se a si próprio.
Mas ele foi escrito há muito tempo (2 de Maio de 1960) e refere acontecimentos que a maioria das pessoas de hoje não conhece, pelo simples facto de que muitas dela ainda não eram nascidas!
Desde 1954 que um cidadão americano de nome Caryl Chessman estava sentenciado à pena de morte, na prisão de S, Quentin. Travou uma longa luta contra a justiça, recorrendo a vários estratagemas e foi adiando o veredicto. Na prisão escreveu 4 livros, um dos quais, Cell 2455, Death Row, que foi um best seller na América e Europa Ocidental.
A questão, às tantas, para muitos, não era tanto aquele caso pessoal, mas a pena de morte, em si.
Figuras como Aldous Huxley, Robert Frost, Norman Mailer, um sem número de intelectuais de todo o Mundo, um prelado evangelista de nome Billy Graham, a mulher do presidente Roosevelt e tantos outros apelaram clemência para Chessman.
No entanto o prisioneiro haveria de ser executado em câmara de gás (com ácido cianídrico) a 2 de Maio de 1960.
n ... A grandeza destas pedras vem do fogo austero de magmas inquietos que subjugaram as montanhas, reminiscências da antiquíssima viagem das águas anteriores à ideia dum objecto modelado pelo tempo.
O que fascina é o seu perfil nebuloso, indulgente perante o movimento dos sóis, os seus desígnios no desvio dum olhar para o lado dos ocasos da luz.
O que inquieta é esta noção amarelenta do tempo, as suas feições austeras imperfeitas desenhadas nos veios deixados pela passagem das águas, o paradoxo dos nossos dias idênticos absurdos.
Não há limite para as formas inacabadas do céu as suas estrelas transgressoras da aventura temível de erigir uma flor e destruí-la com um bafo de vento vindo duma ciência chã, dum destino indecifrável que se lê nestes fósseis da pedra, a impressão digital dum deus desconhecedor dos segredos do amor. em Terrachã, ed. AJEA
Onde inventar um caminho legítimo para o êxodo, uma porta entreaberta respirando o ar que vem da terra?
Os muros da cidade sustentam-se destas incertezas, destas cortinas de fogo, este balbuciar de cansaços inexactos, intranquilos como o fumo esparso, dispersando vozes alheias.
. Não nos inclina a dureza das pedras, a sua fiel sabedoria de intransigências.
. Cantai ainda, sob as árvores à beira rio, entre noite e dia.
Que as chuvas vos acordem num dilúvio de gestos feitos de alegria.
A fresca madrugada se abra à luz sonora e alada.
E que seja brando o vento dos dias caindo devagar sobre o teu rosto
de olhar, por fim, a terra amada à luz do sol resplandecente na pura harmonia do poema.
em Poemas Soltos & Dispersos, volume I, ed.litoral
terça-feira, 9 de setembro de 2008
. À memória de Irene Silva que foi dedicada companheira durante anos .
. Retomemos o caminho de regresso pela tarde que não volta ao lugar donde partimos. . Amanhã será noite. . Nem o silêncio dirá a tua perda. . Nem sequer a mesma árvore que se estende pelas sombras até ao infinito.
Lírios e rosas não calam a memória do tempo raso do retorno aos perfumes que sopravam os teus olhos em mar e serras. . O horizonte acaba aqui: . onde temos os pés e a saudade. . 5 de Setembro de 2008 (entre Lisboa e Lagos)
. . Homenagem ao ciclista . Corre pela planície sem fim, ó aventureiro do deslumbramento e do delírio das engrenagens
porque a roda obedece a um sistema de rodas que aceleram o movimento das estradas e o teu corpo é apenas um espasmo de esferas pulsações, ácido lácteo e ureia em busca da alegria!
A distância é o asfalto abstracto, um fantasma de quilómetros sem medida suspenso de imateriais sonhos de ir longe sobre a ligeireza da miragem perto.
Corre, ó aventureiro, pelas veias do país, pela planície abstracta do teu contentamento, do teu delírio de ir longe, além da miragem do movimento da estrada rasa, para desvendar seus frutos e a raiz inquieta da tua alma!
(Peço desculpa a todos os amigos blogistas, por não estar a responder a todos os comentários mas, neste momento encontro-me muito limitado e com difícil acesso a um computador.)