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domingo, 23 de setembro de 2007
POEMA AO PÓ
A redescoberta que é ver o pó, cheirar o pó,
cheirar a pó. É um rumor inerte, um retrato
tangível de outras memórias perfurantes,
um vazio entre azuis e baços no chão da terra
gritando segredos abatidos ao silêncio ileso.
Praticar a ciência do pó é viajar pelos gelos
da montanha, um texto insondável de signos
sobre a água, reminiscência doutras águas
de apenas a cognição nua, virgem, das fontes
é desvendar a erosão, o murmúrio de colunas
gregas, efémeras, a inocente exaltação das aves
assim que o sol reacende a festa inadiável
e contemplar uma indústria sem nome e sem data,
sem prólogo, divina, puríssima, demoníaca.
quinta-feira, 13 de setembro de 2007
POEMA À MIRAGEM
.....Este dia é apenas uma miragem
.....restos de sombras, sombra.
.....Dos seus beirais caiem fugidias ruas
.....em estilhaços sobre o lancil da luz,
.....pedaços de memórias, ruínas
.....de palavras nunca ditas.
.....Tudo é silêncio e névoa
.....nas grandes viagens transcendentais
.....ao coração matinal dos pássaros, à núbil
.....ciência abstracta dos insectos.
.....Imagem que se desfaz em imagens
.....de pólen, circunscrito a um lugar
.....cada vez mais longínquo
.....que se ateia e logo morre
.....em nossas mãos.
.
..............inédito
terça-feira, 4 de setembro de 2007
POEMA ÀS FLORES DE OUTONO
..........Agora vou reclinando o corpo
..........entre a terra e as estrelas.
..........O espaço é breve
..........para a brisa do mar
..........que ainda soa.
..........E no entanto adormeço
..........no meu sonho,
..........sereno de harmonias
..........incendiando o fino pó
..........da terra
..........com estas flores violentas,
..........exíguas, do outono.
..........em Transparências, ed. AJEA
quinta-feira, 23 de agosto de 2007
POEMA A UMA VELHA ÁRVORE
O perfil duma velha árvore enche-nos de alegria.
A sua sombra traz-nos a presença tranquila da terra,
a forma da própria Terra, a sua frescura fraterna.
É uma pátria renovada de palavras anunciadas, lidas
nas vozes do rio, nas rotas do sol transbordante;
ela restitui os desvelos relembrados desde infância,
a cândida explicação dos perfumes pronunciados
noutros tempos imateriais, mágicos de plenitude;
traz a serenidade neutra, a harmonia dos outonos
na imagem dum rebanho que regressa pela tarde,
nas chuvas temporãs próprias do cheiro do barro,
a secular legítima ideia dum tecto restaurado;
organiza os enxames, une os sons do ar instável,
esvanece o orvalho vagaroso deslizante do corpo.
O colo duma velha árvore é o sonho duma criança
perpetuando a redobrada paz, e acende na água
rumorejante das fontes a sedução dos pássaros.
em Terrachã, ed. AJEA
quinta-feira, 16 de agosto de 2007
O EDIFÍCIO DAS PALAVRAS
..........O edifício das palavras,
..........o projecto inerente à ideia
..........e aos degraus da leitura,
..........o processo linear dos sons
..........e dos afectos
..........um pouco de embriaguês
..........para questionar as sombras e a luz
..........eis a explosão programada
..............o poema
..........a desobediência aos mistérios
..........no desassossego e na emoção
..........de dizer o indizível
..........à luz do dia.
.............................inédito
segunda-feira, 13 de agosto de 2007
POEMA DO FINGIDOR
. .........Arriscar tudo na roleta
........ como o verde em violeta,
.........fingindo fingidor
.........que fingiu o mal de amor.
.........Deslumbrar-se de perder
.........quando tudo estava a ver
.........que só perde o vencedor
.........que se imagina perdedor.
.........Confessar ao confessado
.........que não fui o mal amado
.........e na noite principal
.........encomendar o funeral
.........fingindo fingidor
.........que fingiu o mal do amor.
segunda-feira, 30 de julho de 2007
O VOO DO OVO
Dimensões do quadro em Exposições: 40x24
Arranjo gráfico de Francisco L.
Este quadro tem suscitado comentários muito interessantes. Mas deixo-vos um desafio: Há pelo menos mais um elemento patente na gravura e que ainda não foi aflorado. (1 de Agosto)
(4 de Agosto) - O VOO DO OVO (o pássaro que somos),suscitou variados comentários dos visitantes deste blog.
Na generalidade, eles foram no sentido de interpretar o quadro. Assim, muitos dos meus estimados leitores referiram as cores (implícita ou explicitamente, do arco-íris), o ovo, o voo (dum pássaro) e a terra. Obviamente o castanho não é uma cor do arco-íris e é geralmente conotada com a terra. A terra onde (ou donde) nasce o ovo, para dar as asas (dum pássaro) e subir atravessando as cores do arco-íris, até ao azul (de imediata conotação com o céu). Mas… não nascemos nós próprios dum ovo, na terra! E quem, de nós, não passou por todas as cores (com todas as conotações que isso possa ter)?
Aspiramos ao azul (não será esse o símbolo da plenitude: o céu, o grande mar, onde reina a tranquilidade e a pureza?) E então as asas? E este foi o desfio que lancei, a um dado momento: mal atingimos o azul, ou estamos em vias de fazê-lo, já as nossas asas começam a pender, a descair… a curvar-se… para a terra, o mar, onde tudo recomeça.
Inexoravelmente.
quarta-feira, 25 de julho de 2007
POEMA AOS CONDENADOS
Já não era possível voltar atrás,
nem era possível fitar o caminho passado
com a alegria de o ter vencido.
Agora todo o arco do céu se recobria das suas cores nítidas
com fantasmas de luz fátua, constelações austeras,
andrómeda e hidra,
ainda o mesmo mistério obscuro
calava as serpentes de sedução que se enroscavam nas árvores,
à beira da mais pura lídima transgressora alegria.
As póstumas metáforas de sol dardejavam desejos imprecisos,
obsessões ímpias, espectros.
Soava uma melodia melancólica que anunciava o principio do fim,
como se ouvíssemos um piano moribundo indo para os graves.
Agora tudo se resumia a um espasmo de nocturnas
efémeras mariposas despedaçadas ao calor do dia claro,
amaldiçoando os regressos da luz,
a luz coada etérea das estrelas que para sempre brilham nos céus
e que espalham os seus ocasos imperceptíveis vagarosos,
nos olhos dos condenados.
Inédito
quarta-feira, 11 de julho de 2007
HOJE COMEÇEI
Hoje comecei,
mas não ri
nem chorei.
Comecei
como se começa,
nem devagar
nem depressa.
Comecei
como se termina.
Começar e acabar
é mesma sina.
Não vale a pena ter pressa...
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em "Poemas Primeiros". Ed. AJEA - (reedição)
sexta-feira, 30 de março de 2007
BEETHOVEN
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Beethoven #1
Ao Artur Neira
Foi da primeira vez
que ouvi o tam tam tam tam de Beethoven
era eu criança ainda nada
conhecia da pomba sob o cipreste
nem de dores de dentes nem da dor de Dante
muito menos da dor diante.
Foi como eu se fosse o estado puro
dum cristal que tinisse no interior duma redoma
de dentro para dentro de si próprio
de dentro para dentro do próprio cristal
da primeira vez que ouvi Beethoven
era eu criança ainda nada conhecia dos pátios de Granada
nem de ananases redondos do Vietnam,
só sabia um pouco do sabor do sol e do sal
que trinta anos mais tarde em Londres
descobri mediterrânico.
E no entanto
o sangue acendeu-se-me de pólvora
– uma catedral cheia de formigas
no sítio dito da habitação da alma,
os músculos retesaram-se-me como a um cro-magnon
meditando um búfalo em Altamira
e fiquei a vida inteira a imaginar um homem surdo
atulhado em raízes de liamba
a cheirar fumo pelos tímpanos dos olhos.
em Como um Relógio de Areia
O autor agradece a José Francisco Luz
que instalou a música