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quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

UMA GENEROSA IDEIA DE MAR


Uma generosa imagem de mar
a liberdade abstracta dos horizontes
na transparência de limites inexactos

uma vela ancha, um reino
no pensamento legítimo dum marinheiro

e as cores de leveza no chão das águas
expondo os seus búzios e anémonas  

um cristal perfeito como o perfil do céu.


em ALGARVE ONTEM, ed. litoral, 2011

terça-feira, 6 de maio de 2008

POEMA AO PÂNTANO DO SOL

.

Esta indolência do ar,

o calor ainda húmido da terra

aberta a um olhar fecundo


que apodrece o pântano do sol

em imagem de poeiras imprecisas

pairando à luz do dia


como um tímido cristal

reflectindo a luz na brisa -


águas breves

caindo sobre a fronte


escorrendo

para o interior dos olhos indolentes

de quem conhece a terra

coberta pelo sol.



inédito

sexta-feira, 30 de março de 2007

BEETHOVEN


.
Beethoven #1

Ao Artur Neira

Foi da primeira vez
que ouvi o tam tam tam tam de Beethoven

era eu criança ainda nada
conhecia da pomba sob o cipreste

nem de dores de dentes nem da dor de Dante
muito menos da dor diante.

Foi como eu se fosse o estado puro
dum cristal que tinisse no interior duma redoma
de dentro para dentro de si próprio
de dentro para dentro do próprio cristal
da primeira vez que ouvi Beethoven
era eu criança ainda nada conhecia dos pátios de Granada
nem de ananases redondos do Vietnam,
só sabia um pouco do sabor do sol e do sal
que trinta anos mais tarde em Londres
descobri mediterrânico.

E no entanto
o sangue acendeu-se-me de pólvora
– uma catedral cheia de formigas
no sítio dito da habitação da alma,
os músculos retesaram-se-me como a um cro-magnon
meditando um búfalo em Altamira
e fiquei a vida inteira a imaginar um homem surdo
atulhado em raízes de liamba
a cheirar fumo pelos tímpanos dos olhos.

em Como um Relógio de Areia

O autor agradece a José Francisco Luz
que instalou a música