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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

POEMA AO TEMPO

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O tempo são estas asas sem memória,

um pássaro morto. Folhas ao vento

que discorrem sobre um discurso raso,

uma reminiscência de sulcos na praia,

numa praia vazia, cheia de ecos do mar.

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em "Por detrás das Palavras", ed Mic, 2002

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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

POEMA À CASA

casas# 4
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Estes muros são a nossa casa,

o modo austero de preservar

o tecto para as chuvas e o vento,

onde encontrar um refúgio, o alento

para dizer as palavras indizíveis.

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Aqui coabitamos com as dúvidas

que escondem um instante efémero,

uma noção solene do nosso tempo breve

para discorrer sobre os acasos.

-

Transpiramos as sombras espessas

que chegam depois da exígua claridade

ofuscando o brilho dos nossos olhos

-

para que o amanhã de novo se construa

por cima dos nossos restos da luz morta.

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- em "Causas de Habituação", em preparação


sábado, 31 de janeiro de 2009

O FRIO DOS DIAS


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O frio

do frio dos dias

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O frio

nas mãos vazias

-

O frio

nos olhos luz

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O frio

chopin tocando

-

o frio

nos dedos quando

-

o frio

frio

chegando.

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em "O Frio dos Dias", 1980, esgotado

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

OS TRABALHOS DA LUZ

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Os trabalhos da luz

explicam as sombras da luz.

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Disfarçam o seu ardor íntimo

articulado em saberes próprios

da ausência da luz.

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E somos nós os destinatários

os eruditos

em suas mistificações

.

para encobrir a evidência

do eterno retorno dos séculos

e de outras criaturas

também ciosas de luz.

inédito

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

OS TEUS OLHOS

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Os teus olhos perpetuavam a lembrança dos grandes rios

perpassando na bruma antiquíssima da montanha

e tinham o silêncio trémulo transparente das estrelas

que se extinguem ao clarim da aurora

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Os teus olhos tinham a serenidade dos grandes dias

iluminando a cinza prateada das escarpas

na cor serena tranquila das memórias

que renascem ao clarim da aurora

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Os teus olhos tinham o sussurro rumorejante das ervas

onde crescem os ventos ágeis da planície

a luz milenar da manhã primeira

que me acordou ao clarim da aurora.

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sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

AZUL DOS PÁSSAROS

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Sonhamos voar azul dos pássaros –

uma grinalda branca para enfeitar um rosto de mulher,

um cavalo de sangue lusitano no coração dum réptil.

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De tempos a tempos desenterramos um diamante

dentro duma ostra

(que nunca nos pertence),

mas resistimos

-

porque as águas caiem escorrendo sobre a fronte

porque a cidade se estende no interior

das árvores

porque as árvores se justificam na solidão dos ares.

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em "Transparências", ed AJEA, 1999

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

POEMA LONGO

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CIRCUNCICLO

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I

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Por toda a terra

por sobre todas as suas alucinações

e escombros

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pelo delírio

que é a engrenagem fugidia do ar

e suas cores de incenso e fogo

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pela vida e pela morte dos símbolos

e da roda simétrica de fortunas e ocasos

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a roda que rola na roleta

o rolar lilás dum sonho..


Pela voraz decrepitude das formas

e suas deambulações sobre as águas

trazendo uma lágrima aos nossos olhos

e o esmorecimento ao fogo e ao incenso

-

na casualidade dum átomo

que oscilou

entre a matéria e o frágil magistério

das essências

que povoam os ares

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e que habitam o ardil das folhas das árvores

num rosto filtrando um raio de sol

uma migalha de luz

agitando o correr das águas

e se esbatendo sobre o limbo tranquilo

do rio

dentro do nosso sangue.

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Pela veloz sincronia do tempo e das chuvas

chuvas de águas e pó

de vulcões ardendo no magma

interior dos nossos corpos

como um fogo emergindo das cinzas

cinza que fomos antes de ser fogo

anterior à ideia que temos do corpo

..

formatados ao rochedo da montanha

no móvel desafio das areias

e seduzidos à lama e ao barro

onde nascemos da afinidade do pó pelas águas

no seu ministério de construir ficções

de água e pó

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e que fez antigas ânforas

de marinheiros e mitos

afundados no Egeu e em Creta

donde emergiram as nossas ficções

ou na longínqua noite

de ignoradas estrelas

que brilharam na infância do tempo

..

este é o homem que somos

.

um incêndio

desde a noite mágica dos sonhos

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e como os deuses do barro caminhamos

por sobre o barro feito luz

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o sonho dos deuses do barro que fomos

refeito em luz

no quotidiano ciclo dos fascínios

o fascínio de ir refazendo o quotidiano.

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(...)

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(excerto do 1º CANTO, dum poema de 518 versos)

inédito

sábado, 27 de dezembro de 2008

poema em plástico

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...............Em plástico me embrulho

...............ou me plastifico;

...............e no meio do entulho

...............em plástico fico.

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...................em POEMETOS. I . (esgotado)




segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

POEMA DE NATAL

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Naquela noite fazia frio fazia pena
ver almas despedaçadas deitadas corpos entrouxados
dispersos nas calçadas luzidias do passeio das ruas
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Caía uma névoa fina que simulava chuva punhais
de raiva e resignação ou antes uma levada de mágoa
de murmúrios sem data sem fumo sem restos de cio
perdidos num mar de pedras nas calçadas da rua
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Era uma noite de claustros tambores rufando clamando
os clamores da vida a náusea descrente na boca sofrida
o granito fundido já duro das lutas perdidas
pisado nos ossos nos ombros nos olhos que olham
as coisas por fora nas coisas por dentro
e as noites nos dias e os búzios na praia sem vento
soprando as pedras do passeio da rua
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Doía a quem doía não fora a noite uma noite
de aprazimento em todas as aldeias da cidade
tempo de alegrias acepipes farturas alvarinho
em casas abastadas sobranceiras aos passeios da rua
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o mais vago grave desígnio dum oráculo de plenitude
na inocência das crianças nas crenças na sentença
dos mecanismos que levam ao enternecimento
por ver a chuva a cair sobre corpos alheios
prostrados enrodilhados no manto do passeio das ruas.
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sexta-feira, 21 de novembro de 2008

POEMA EM NOVEMBRO

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POSTAIS ILUSTRADOS # 6
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Clique para melhor ler
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a luz breve escoando os restos do vidro
a luz leve moendo a cânfora dos olhos
a luz neve abrindo o pântano do sol
 

terça-feira, 4 de novembro de 2008

POEMA À LUA

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...........................“Vista do espaço

..............................a Terra é azul”.

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.....Os poetas vivem na Lua.

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.....Por isso amam a Terra

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.....e escrevem poemas

.....ao seu azul infatigável.


quarta-feira, 29 de outubro de 2008

VIAGEM ATRAVÉS DA LUZ

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As primeiras estrofes

do poema "Viagem através da Luz" (4.900 palavras),

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Transitamos através da luz

somos a pura contemplação da luz

a linguagem o cinzel dum barco

em perpétuas lúdicas viagens

ao interior dum mapa

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e os nossos olhos acendem as manhãs

ébrios pela plenitude das manhãs

na linguagem alada dos sentidos e das seivas

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buscam o segredo subterrâneo da alegria

por onde se estende o seio dos rios

as ervas que ecoam pelos caminhos claros.

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São a nossa mais delicada ansiedade

mas também a nossa paixão as suas divagações

pelo oculto obscurecido dos olhos

que ignoram o modo sereno da luz e do pó

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ou as imagens que fixam os contornos do tempo

em figuras intemporais seduzidas

pela linguagem das águas, o caos

do rumor do vento

na dimensão do céu animado pelo voo das aves.

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E são os contornos da paisagem o nosso mundo

a nossa dedicada veneração

este modo quase ausente de persistir

na busca de formas transcendentes

de imagens de modelos de palavras

gémeas do abstracto imaginário dos nossos olhos

.

por onde guiaremos os passos

nas veredas insondáveis

da luz que se acende e apaga

a nossos pés

dentro de nós mesmos.

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-(...)


sexta-feira, 24 de outubro de 2008

REGRESSO A CASA

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A passagem das horas

o perpassar dos dias
o lento fervilhar do tempo em seus artifícios
de claridade e sombras
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trazem-nos a este lugar preciso
de quietude
em ondulações de silêncio e apaziguamento.
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É aqui
onde deveremos reaprender
os festejos da luz
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a sombra do pecado original
dos fascínios
pelo regresso urgente
a nossa casa.
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inédito

domingo, 19 de outubro de 2008

PENA DE MORTE

Esta minha postagem 19 de Outubro, requer alguma informação suplementar.

Não é uma explicação do poema, porque o poeta não tem que explicar o que escreve. O poema, por si, deve ser suficiente e explicar-se a si próprio.

Mas ele foi escrito há muito tempo (2 de Maio de 1960) e refere acontecimentos que a maioria das pessoas de hoje não conhece, pelo simples facto de que muitas dela ainda não eram nascidas!

Desde 1954 que um cidadão americano de nome Caryl Chessman estava sentenciado à pena de morte, na prisão de S, Quentin. Travou uma longa luta contra a justiça, recorrendo a vários estratagemas e foi adiando o veredicto. Na prisão escreveu 4 livros, um dos quais, Cell 2455, Death Row, que foi um best seller na América e Europa Ocidental.

A questão, às tantas, para muitos, não era tanto aquele caso pessoal, mas a pena de morte, em si.

Figuras como Aldous Huxley, Robert Frost, Norman Mailer, um sem número de intelectuais de todo o Mundo, um prelado evangelista de nome Billy Graham, a mulher do presidente Roosevelt e tantos outros apelaram clemência para Chessman.

No entanto o prisioneiro haveria de ser executado em câmara de gás (com ácido cianídrico) a 2 de Maio de 1960.

Precisamente… no dia do meu aniversário!

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Em 22 de Outubro.




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domingo, 12 de outubro de 2008

FOGO AUSTERO

n
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A grandeza destas pedras vem do fogo austero
de magmas inquietos que subjugaram as montanhas,
reminiscências da antiquíssima viagem das águas
anteriores à ideia dum objecto modelado pelo tempo.

O que fascina é o seu perfil nebuloso, indulgente
perante o movimento dos sóis, os seus desígnios
no desvio dum olhar para o lado dos ocasos da luz.

O que inquieta é esta noção amarelenta do tempo,
as suas feições austeras imperfeitas desenhadas
nos veios deixados pela passagem das águas,
o paradoxo dos nossos dias idênticos absurdos.

Não há limite para as formas inacabadas do céu
as suas estrelas transgressoras da aventura temível
de erigir uma flor e destruí-la com um bafo de vento
vindo duma ciência chã, dum destino indecifrável
que se lê nestes fósseis da pedra, a impressão digital
dum deus desconhecedor dos segredos do amor.


em Terrachã, ed. AJEA

sábado, 4 de outubro de 2008

POESIA EXPERIMENTAL

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O DESENVOLVIMENTO DO POEMA
OU
POEMA PÓSTUMO DE MIM
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clicar na imagem para melhor ler o texto

Este quadro, em exposição, tem as dimensões de 65 x 32

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Muros

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Onde inventar um caminho legítimo
para o êxodo, uma porta entreaberta
respirando o ar que vem da terra?


Os muros da cidade sustentam-se
destas incertezas, destas cortinas
de fogo, este balbuciar de cansaços
inexactos, intranquilos como o fumo
esparso, dispersando vozes alheias.

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Não nos inclina a dureza das pedras,
a sua fiel sabedoria de intransigências.

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Mas tarde é inútil, para fingir exílios.


Hoje já é ontem, para o fim indiciado.

em Terrachã, ed. AJEA