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O frio
do frio dos dias
O frio
nas mãos vazias
O frio
nos olhos luz
O frio
chopin tocando
o frio
nos dedos quando
o frio
frio
chegando.
.
em "O Frio dos Dias", 1980, esgotado
.
O frio
do frio dos dias
O frio
nas mãos vazias
O frio
nos olhos luz
O frio
chopin tocando
o frio
nos dedos quando
o frio
frio
chegando.
.
em "O Frio dos Dias", 1980, esgotado
.
Os trabalhos da luz
explicam as sombras da luz.
Disfarçam o seu ardor íntimo
articulado em saberes próprios
da ausência da luz.
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E somos nós os destinatários
os eruditos
em suas mistificações
para encobrir
do eterno retorno dos séculos
e de outras criaturas
também ciosas de luz.
perpassando na bruma antiquíssima da montanha
e tinham o silêncio trémulo transparente das estrelas
que se extinguem ao clarim da aurora
Os teus olhos tinham a serenidade dos grandes dias
iluminando a cinza prateada das escarpas
na cor serena tranquila das memórias
que renascem ao clarim da aurora
Os teus olhos tinham o sussurro rumorejante das ervas
onde crescem os ventos ágeis da planície
a luz milenar da manhã primeira
que me acordou ao clarim da aurora.
.
.
Sonhamos voar azul dos pássaros –
uma grinalda branca para enfeitar um rosto de mulher,
um cavalo de sangue lusitano no coração dum réptil.
De tempos a tempos desenterramos um diamante
dentro duma ostra
(que nunca nos pertence),
mas resistimos
-
porque as águas caiem escorrendo sobre a fronte
porque a cidade se estende no interior
das árvores
porque as árvores se justificam na solidão dos ares.
.
em "Transparências", ed AJEA, 1999
CIRCUNCICLO
....
I
por sobre todas as suas alucinações
e escombros
pelo delírio
que é a engrenagem fugidia do ar
e suas cores de incenso e fogo
pela vida e pela morte dos símbolos
e da roda simétrica de fortunas e ocasos
a roda que rola na roleta
o rolar lilás dum sonho.
Pela voraz decrepitude das formas
e suas deambulações sobre as águas
trazendo uma lágrima aos nossos olhos
e o esmorecimento ao fogo e ao incenso
que oscilou
entre a matéria e o frágil magistério
das essências
que povoam os ares
e que habitam o ardil das folhas das árvores
num rosto filtrando um raio de sol
uma migalha de luz
agitando o correr das águas
e se esbatendo sobre o limbo tranquilo
do rio
dentro do nosso sangue.
.
Pela veloz sincronia do tempo e das chuvas
chuvas de águas e pó
de vulcões ardendo no magma
interior dos nossos corpos
como um fogo emergindo das cinzas
cinza que fomos antes de ser fogo
anterior à ideia que temos do corpo
..
formatados ao rochedo da montanha
no móvel desafio das areias
e seduzidos à lama e ao barro
onde nascemos da afinidade do pó pelas águas
no seu ministério de construir ficções
de água e pó
.
e que fez antigas ânforas
de marinheiros e mitos
afundados no Egeu e em Creta
donde emergiram as nossas ficções
ou na longínqua noite
de ignoradas estrelas
que brilharam na infância do tempo
este é o homem que somos
um incêndio
desde a noite mágica dos sonhos
e como os deuses do barro caminhamos
por sobre o barro feito luz
o sonho dos deuses do barro que fomos
refeito em luz
no quotidiano ciclo dos fascínios
o fascínio de ir refazendo o quotidiano.
.
(...)
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(excerto do 1º CANTO, dum poema de 518 versos)
inédito
...............Em plástico me embrulho
...............ou me plastifico;
...............e no meio do entulho
...............em plástico fico.
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...................em POEMETOS. I . (esgotado)
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...........................“Vista do espaço
..............................a Terra é azul”.
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.....Os poetas vivem na Lua.
.....Por isso amam a Terra
.....e escrevem poemas
.....ao seu azul infatigável.
As primeiras estrofes
do poema "Viagem através da Luz" (4.900 palavras),
,
Transitamos através da luz
somos a pura contemplação da luz
a linguagem o cinzel dum barco
em perpétuas lúdicas viagens
ao interior dum mapa
e os nossos olhos acendem as manhãs
ébrios pela plenitude das manhãs
na linguagem alada dos sentidos e das seivas
buscam o segredo subterrâneo da alegria
por onde se estende o seio dos rios
as ervas que ecoam pelos caminhos claros.
São a nossa mais delicada ansiedade
mas também a nossa paixão as suas divagações
pelo oculto obscurecido dos olhos
que ignoram o modo sereno da luz e do pó
ou as imagens que fixam os contornos do tempo
em figuras intemporais seduzidas
pela linguagem das águas, o caos
do rumor do vento
na dimensão do céu animado pelo voo das aves.
E são os contornos da paisagem o nosso mundo
a nossa dedicada veneração
este modo quase ausente de persistir
na busca de formas transcendentes
de imagens de modelos de palavras
gémeas do abstracto imaginário dos nossos olhos
.
por onde guiaremos os passos
nas veredas insondáveis
da luz que se acende e apaga
a nossos pés
dentro de nós mesmos.
-
-(...)
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Onde inventar um caminho legítimo
para o êxodo, uma porta entreaberta
respirando o ar que vem da terra?
Os muros da cidade sustentam-se
destas incertezas, destas cortinas
de fogo, este balbuciar de cansaços
inexactos, intranquilos como o fumo
esparso, dispersando vozes alheias.
.
Não nos inclina a dureza das pedras,
a sua fiel sabedoria de intransigências.
.
Mas tarde é inútil, para fingir exílios.
Hoje já é ontem, para o fim indiciado.
em Terrachã, ed. AJEA
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Um dia era era barco
..............................e
...........estaria certo?
um barco é só barco –
fluxo madeira ferro..... fluido bandeira ferro
louco sistemático livre no mar redondo
à espera
.
..................ah
eu era barco –
norte sem bússola..... forte sem música
e havia uma transcendência grave
na grande esfera.
.
Pouco ou nada
........sinais quadrados números
........finais princípios fumos
........ah
pouco ou nada..... ou nada.
.
........Vitórias vigília glória
........viragem ventos fúria
eu era um barco
vertiginosamente eu era um barco.....
só barco
só.
.
No barco..... um dia..... vento vertigem
do fundo da fúria..... a fúria do vento
a origem
.
..........ah
meu barco..... num dia..... barco
total.
.
Rugias oh vento
bramias oh fúria
meu casco partiu
oh frágil madeira
oh ferro já frio.
-
Lutei toda a noite
os meus passageiros
a carga fretada
................... ah
o porto distante
espera o teu nada.
Fui um barco meditando
.... morrer no meu posto na luta do dia
.....voltar ao meu porto..... e um dia
.....ah um dia..... na fúria do ciclo
.....entregue à sucata;
os meus passageiros..... deixá-los aqui
levá-los daqui ao porto distante
.....pra quê
.
.............ah
oh madeira oh meu ferro oh novíssimo nylon
......na luta do dia morrer no meu posto
......na fúria do ciclo voltar ao meu porto?
.............ah
TENHO DE LER A HISTÓRIA DO MUNDO