Li
nos teus olhos
li
ah... isso li!
Ai, o que eu li
nos teus olhos
Lili!...
Li
nos teus olhos
li
ah... isso li!
Ai, o que eu li
nos teus olhos
Lili!...
.
Uma casa em pedra é um lugar onde se fabricam
os utensílios mais fraternos, talvez o lugar próprio
para descobrir a nossa vocação para plantar lírios
à beira das veredas, no caminho interior do lar.
.
Nela se redescobre a teimosa mão do poder das cinzas
à lareira, um jarro de água sobre a mesa, o pão amassado
na véspera, ante o alvoroço anónimo das crianças
ao odor das leveduras ainda frescas, transfiguradas.
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Dentro das pedras se erguem as vozes vindas da planície
como se viessem da própria casa, do mais íntimo da terra,
misturando-se o apelo das águas e as narrativas
de animais nocturnos, obscuros, na fronte das montanhas.
.
E é daí que se lê a premonição das estrelas circundando
o destino de ervas e bichos que se fundem aos processos
por onde o vento soa, geométrico, um tempo sem data,
uma verdadeira abstracção de objectos nus, imaginários.
Agora veja aqui como a amiga Eliane do blog ,
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Agora vou reclinando o corpo
entre a terra e as estrelas.
O espaço é breve
para a brisa do mar
que ainda soa.
E no entanto,
adormeço
no meu sonho,
sereno de harmonias
.
incendiando o fino pó
da terra
com estas flores violentas,
exíguas, do outono.
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A nossa casa é um lugar ao vento, mas buscamos
o absoluto, a bárbara verdade duma onda sobre a praia.
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Tudo nos pertence porque guardamos na memória
os restos do apego às coisas que tivemos, os gestos
de gratidão que vimos no coração dos dias violentos.
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do ânimo, os desígnios legítimos de plenitude.
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Mas por isso ainda somos a centelha que arde devagar
na paisagem estreita de árvores estóicas, em momentos
de tempestade, na consciência das opções sublevadas.
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em "Transparências", ed. AJEA
-.
" VIAGEM ATRAVÉS DA LUZ"
é um só poema de 60 páginas (918 versos),
e vai ser apresentado na Livraria Barata,
na Avª de Roma, em Lisboa, no dia 15 de Outubro,
pelas 18 e 30.
Tem a chancela das Edições Papiro.
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(Um excerto do poema)
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Transitamos através da luz
somos a pura contemplação da luz
a linguagem o cinzel dum barco
em perpétuas lúdicas viagens
ao interior dum mapa
e os nossos olhos acendem as manhãs
ébrios pela claridade das manhãs
na linguagem alada dos sentidos e das seivas
buscam o segredo subterrâneo da alegria
por onde se estende o seio dos rios
as ervas que ecoam pelos caminhos claros.
São a nossa mais delicada ansiedade
mas também a nossa paixão as suas divagações
pelo oculto obscurecido dos olhos
que ignoram o modo sereno da luz
ou as imagens que fixam os contornos do tempo
em figuras intemporais seduzidas
pela linguagem das águas
pelo rumor do vento
na dimensão do céu animado pelo voo das aves.
E são os contornos da paisagem o nosso mundo
a nossa dedicada veneração
este modo quase ausente de persistir
na busca de formas transcendentes
de imagens de modelos de palavras
gémeas do abstracto imaginário dos nossos olhos
.
por onde guiaremos os passos
nas veredas insondáveis
da luz que se acende e apaga
a nossos pés
dentro de nós mesmos.
(...)
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PRETÉRITO IMPERFEITO DUM GATO
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Um gato havia um gato na estrada
……….morto
cabeça de bosta corpo de terra
…...…..sujo
e havia um laivo sangrento no asfalto
……….habituado
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Um gato havia um gato
no mole da terra que a chuva
……….faz lama
.
o rabo do gato no sítio
………..da lama
.
o rabo do gato vazando por dentro
o sítio onde a lama já teve certezas
.
o rabo do gato o rabo do gato
.
…..……no asfalto
.
..............habitado
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.....em "O FRIO DOS DIAS", esgotado
..
………..“Se alguma vez quisermos ter um pouco
…….....de conhecimento de qualquer coisa,
……......é necessário separar-nos dela e olhar
……......apenas com a alma, as coisas em si mesmas”
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É urgente estudar as pegadas dos dinossauros
que por aqui morreram há milhões de anos
deixando no ar este frémito de angústia,
.
para algum ensinamento útil, alguma nova luz
sobre o comportamento das raízes febris,
mormente sobre a função do seu apego à terra.
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Nelas se reconhece uma ideia de passageiro
num alvo horizontal sobre o chão cercado.
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Têm a estrutura móvel, táctil, dum esteiro
organizado pelas ciências exactas do comércio
estratificado em paralelas camadas geológicas.
Roçam o paradigma da precisão geométrica
como as estátuas, insinuando os gregos.
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Explicam os tijolos feitos do barro nupcial
a curvatura vã do céu observado à noite
.
e são como um livro de sentenças insuspeitadas
que jaz na fronteira duma torre entreaberta.
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em TERRACHÃ, ed. AJEA
-.
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O meu nome é Eloíza
.
onde queria eu estar senão em Ibiza
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no Mediterrâneo
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se trago esta rosa em flor
.
no sub-cutâneo
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Algures no Mediterrâneo
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Para louvar as palavras,
inventar a palavra exacta é um acto de amor
.
o assento singular da sua pronúncia
a serena veneração de fantasias ideais
apreendidas ao longo das memórias.
Respira dos ares a harmonia do seu halo,
ecoa pelos sentidos numa bonina suave
levada ao caminho para o tranquilidade
suspensa no espelho indolente dum lago.
É idêntica vibração das cordas do peito
estendendo-se aos limites da plenitude
o saber deste exercício rigoroso de consciência
no discurso plural da palavra amar.
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em "Poetânea", ed Hugin
....Gente humilde habitou séculos estes vales,
....na condição imponderável da angústia
....pelo fruto incerto da terra, pela sedução
....de apenas ver crescer o trigo, as chuvas
....do inverno anunciador da seara renovada.
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....Fazia-o em sua inocência agrária, medieval,
....trespassada por voláteis alegrias da luz
....a imaginar os crepúsculos esbeltos
....duma manhã irreprimível de harmonias.
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....E pouco entendia a náusea da afronta
....em que vivia: o pão exíguo, a obediência
....sem retorno ou gratidão, apenas uma enxada
....com que cavar a própria vida, a charneca
....onde semeava a ruína de seus sonhos.
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Tal como os passos dados na praia
o dia de hoje é frágil, apenas evocativo,
o chão onde cresce uma flor ambígua.
Tem o aroma bivalve, mediterrânico
de quotidianas algas sucumbidas nas areias,
traz notícias de longínquas luas derretidas
em pequenas conchas que habitaram sonhos.
É um espaço de presenças nuas que se dilui
na linha que separa as cinzas e o fogo,
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mas é a margem onde escrevo as vozes suspensas
da minha veneração, da minha pura alegria,
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do meu eterno desassossego na descoberta
pelo hálito concreto, fraterno, dos búzios.