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quarta-feira, 28 de novembro de 2007

POEMA À MOSCA

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Pobre irmã mosca, triste insecto díptero, abundante de olhos
para não ver a teia, para não respirar as trevas à luz do dia!

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Como eu te invejo, mas martirizo com vidros transparentes
azuis-brancos, imitações de fruta, aromas a romã, outras sinais
com que perdes a cabeça e ganhas o engenho da cópula,
nas lides, nas tardes chãs de apenas buscar a seiva árida!

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Ah, minha querida mosca, meu devaneio de ser homem
com olhos dentro dos olhos, para ver outras realidades, cores,
dimensões que tu nunca mediste, na tua inocência agrária
de apenas medir o tamanho do teu voo, das tuas patas ágeis
para desembarcar nos espaços nus onde reina a tranquilidade

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um lugar para existir devagar sobre as coisas que são as tuas
onde encontrar outra mosca irmã, para completar a crónica.

em Terrachã, ed. AJEA

sábado, 10 de novembro de 2007

POEMA À CIDADE

 .
A cidade irá permanecer depois da minha morte:
irá permanecer em metamorfoses de claridade
o céu esvanecendo a reminiscência duma elipse
num sentimento ainda vago pelas ausências.
 .
Cumprirá a norma habitual das regras eruditas,
a de exercer a utopia num casulo de teias indeléveis
só perceptíveis nas mais ocultas noites
onde os sonhos abusam dos olhos comovidos.

 -
Irá permanecer nas vielas duma probabilidade
insondável, de mistérios irrevelados,
insolúveis, mas destros de memórias
doutros tempos, do tempo ausente, de ontem.

 º
Irá permanecer com a mesma célere inconsciência
de raízes demoradas sobre a terra, na solidão dos dias
e irá até ao limite a luminescência da noite
flutuando sobre o infinito de outras vidas interinas.