,

,

quinta-feira, 2 de maio de 2013

2 de MAIO

Foi um dia igual aos outros dias.
 .
Acordei à mesma hora de ontem e de amanhã
vesti-me como os outros dias me vestia
o mesmo emblema me orlou a lapela
o mesmo ideal louco me embutiu a razão
e até os meus sapatos
deixaram as mesmas marcas invisíveis
sobre o caminho de pedra.
-
escrito a 2 de Maio de 1961

quinta-feira, 18 de abril de 2013

SONHO


Sem saber como nem donde eu vinha,
enfiei os pés na água
escorrendo daqueles olhos escuros que fitavam a eternidade.
 .
Estava o caminho recoberto de musgo,
líquens sobre a pedra, pedaços de ervas e árvores
decaindo aos bolores do tempo.
 .
Ao lado, uma bola prateada, redonda,
rodava na roleta e caía num poço
que se estendia às fragas da montanha
a avultar na minha frente,
derruindo.
 .
Sinto um baque no barro do coração.
Amanhã virá a manhã a sair das trevas.
 .
Sonho, logo ainda resisto.
E é pelo sonho que insisto.
 .
Mas não há maneira de sair dali.
 .
O meu cérebro trabalha tão depressa como a seiva,
como o coração da terra reclamando os seus mártires.
 .
Tanto mais que eu e ela nos aproximávamos tanto,
nos colávamos tanto na mesma visão de fogo e cinzas,
que eu comecei a perceber que não havia
nada como aquele calor que me chegava ao sangue
e me transformava num ser repleto,
saturado da ternura daquele momento,
daquela suprema verdade.
 .
Bebi da água que aos poucos
ia dissolvendo o barro do meu coração.
 .
Deixei correr as estradas,
as estrelas,
os rios do mesmo deslumbramento.
 .
Era dia,
em todas as madrugadas da minha paixão.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

PERDEDOR


  Tenho sido sempre um perdedor das coisas simples
  do espaço aritmético do coração aberto ao mar.

  O meu sangue é um rio deslumbrado das escarpas
  que me apertam os ossos ébrios das montanhas
  dos altos cumes onde habita a águia
  donde se vê de mais perto as estrelas trémulas da alegria.

  Sou um perdedor das coisas fáceis, das águas breves
  que se amontoam em crepúsculos do passado
  e na sucessão vertiginosa de restituídas seivas
  inscritos na lápide dos pensamentos nítidos.

  Transmito-me pelos limites da maré e dos céus     
  que se aprisionam da flauta dos meus olhos
  no violoncelo na harpa encandeada
  dos dias por onde passo e me consumo.

sábado, 23 de março de 2013

O SONHO DOS DEUSES

Está publicado o 2º Volume de "POÉTICA", 
da Editorial Minerva. 
Nesta Antologia colaboram 75 autores da CPLP, 
num volume de 448 páginas.

Eis um dos poemas da minha participação:
 .
 O SONHO DOS DEUSES
 .
              “Os homens são o sonho dos deuses”
                                                 Da mitologia hindu
 .
Assentemos em que a vida é um acto que transporta
um minúsculo sobressalto dos deuses, o seu sonho:
o homem, com quem partilhar uma taça cheia
de barro para derramar nos rios que correm.
 .
Comentaremos o nosso próprio sonho
numa grinalda que nos trará um tremor de lábios
um ombro também a partilhar a mesma solidão.
 .
Porque o mistério dum olhar tranquilo, ali perto,
é a inocência das raízes que buscam o lago extinto
 .
e se esgota na génese das paixões,
no impassível decurso dos sóis sobre o desespero,
irmão dos deuses, no mesmo sobressalto
na mesma solidão dos deuses, o seu sonho,
como o nosso, de plenitude.

terça-feira, 5 de março de 2013

O MODO



Tudo depende do modo
a forma de processar os símbolos

porque os símbolos são o modo
de olhar o processo 
.
com que mitigamos a sede.
 .
.....-.inédito

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

O MECANISMO DO VENTO

.
Entender o mecanismo do vento, o seu carácter transitório,
o caminho das pétalas duma flor sobre um vidro transparente
que reflecte a imagem do próprio frio do vidro colado ao tempo
.
é um acto que pressupõe a elaboração cuidada dum inventário
das causas remotas, um roteiro para o exacto declive das águas
que vêm da montanha, coabitando na terra, unindo-se à terra.
.
Essa é a verdadeira ciência dos musgos e do pólen que alaga
os nossos olhos com círculos irisados de sol, que transfigura
o nome que se dá a uma maçã, mesmo se na forma duma pedra;
 .
e dessa textura é a frágil química dos sonhos, da predestinação
das noites caindo devagar sobre as nossas mãos demoradas, 
a sua eterna transfiguração, o ciclo da água, o círculo do planeta.
.
em Terrachã, ed. AJEA



sábado, 16 de fevereiro de 2013

MERIDIONAL PRAIA LUSITANA

Para melhor visionar clique no youtube.
.
Por sugestão da Ana, do blog (inCultura), a quem agradeço, 
aqui vai o poema, tal como saiu no livro "Algarve Ontem"
.


terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

PARA DESENHAR O DIA



Para desenhar o dia
é necessário um monte de cores
um arco e uma flecha para os pincéis
tocarem a música do violino
 .
e um pardal a saltitar sobre o chão
 .
como fazem outros homens
antes da noite.