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quarta-feira, 10 de junho de 2009

SONETO CLÁSSICO

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Subi um dia pela tarde aquele monte
donde as coisas do mundo que habitamos
fazem crer-nos, de longe, que julgamos
ver de perto, ao longe, o horizonte.

Alta serra de luz cegando a fronte,
quando ao ponto mais alto nos chegamos
das coisas desse mundo que avistamos
já não vemos se vemos lago ou fonte.

E do alto da serra contemplei
em plena luz, a luz que iluminava
o aparente sossego que reinava.

Desci depois do ponto onde cheguei,
mas só quando na terra descansei
é que entendi que a vista me enganava.
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domingo, 31 de maio de 2009

POEMA AO MEU ESPAÇO

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Cerca-me o espaço que não vejo

a curvatura relativista

de meus olhos, o horizonte

que entra a fundo no meu corpo,

a claridade das formas

que se incendeiam.

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O meu espaço foge

aos tensores de Riemanm

alarga-se a alaga-se

num lago próximo.

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Desconhece as leis da física,

permanece à luz

e pertence aos artifícios da luz,

como silhueta duma árvore

respirando a interior volúpia

das águas móveis.

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terça-feira, 26 de maio de 2009

TAMBÉM HÁ UMA RUA SEM NOME

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Também há uma rua sem nome, na cidade:

um caminho obscuro, em laje de basalto

cheia de perplexidades e redundâncias,

com um arco-íris num dia sem sol,

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um caule tardio na incerteza dum pátio

ou a cicatriz duma lâmpada no escuro

das casas disformes, desfeitas em barro.

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É uma rua estreita habitada por sombras

de fogos extintos, numa transparência antiga

própria dos répteis que abalaram o planeta.

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Não tem nome nem crisântemos às janelas,

é uma rota obstruída pelas ladeiras do sal

ponto de referência, aliás, da tranquilidade.

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inédito

sexta-feira, 1 de maio de 2009

POEMA EM MAIO

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Com seus tambores fogo e cinza
o mel da manhã menino
de luz e sombra.
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Rosto lesto rosto
de alísio ágil cio.
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O mês em que nasci.
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A bruma e o sol.
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O sul nascente.
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o mar.

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em "A Palavras em Duas", 1983, esg.

sábado, 18 de abril de 2009

POEMA CONTRA

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Contra que efeitos visuais auditivos sensoriais difusos

subsequentemente traduzidos por exemplo pelo arrière-goût

dum bourgogne ou deste colares em sua garrafa verde garrafa

tão rigorosamente cheia de cognições.

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Contra que estados de alma – o ópio a televisão do drama

a viragem no barranco eléctrico amarelo do Carmo.

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Contra que imagens gestos molduras vernizes – a cara do sujeito

o timbre da voz que arrepia os tons armazenados na paleta

dos ossos sobre os quais ando como jogo me transmito e passo.

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Contra que filosofias aritméticas métodos medidas lógicas

se só avanço a golpes de loucura a arrombamentos de portas

a viagens pelo mar violento do pacífico

debaixo da grande abóbada negra pejada de estrelas

donde caiem belíssimas colunas gregas

e esta incansável necessidade de repensar

o homem o seu destino a vida (havida) e o vírus.

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Contra que tempo ou época ou brisa e suas reverberações

de azul nuvens poeira fumo níveis de convencional mediania

geralmente aceite pela mediania realmente convencional

abcesso abjecto e alegre.

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Contra que influências por irradiação lume luzes

visíveis ou invisíveis induções electromagnéticas

parece que apenas desprendidas dum olhar logo nos aprisiona

e sobe pelas pernas acima sob a forma suprema

dum lagarto ao sol.

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Contra que perspectivas palco décor plongée –

visto de baixo voo visto de cima sou um monte de ossos

uma máquina de fazer caca tão ordeiramente organizada

que rebento de gozo pelos poros dos sangue.

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Contra que compostura de substrato cultural –

não nego o efeito abomino a inerência a preservação

o uso e abuso das cores da bandeira a caixa de lápis-de-cor

que cheira a ranço à segunda vez dum english breakfast.

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Contra que fenomelogia de cristais tão cristalinamente

geométrica tão repentinamente equação

tão solene e atulhada de redomas catedrais europas flor e fruto

tim-tim por tim-tim.

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Contra que mistérios que só são mistério para quem conta

pelos dedos como a menina mulher naquela manhã lilás

explodida através dum relâmpago visível pelos séculos

dos séculos até à noite de absinto mãe da morte previsível

da espécie

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ora ora...

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em ANTOLOGIA ANTI-FLORAL, Ed. BARLAVENTO

segunda-feira, 13 de abril de 2009

POEMA ÀS FLORES

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(...)

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Ah..........inundemos o deserto

de flores

do deserto!

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em 37 Poemas (o meu primeiro livro) esg.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

POEMA AO AMOR

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"Ich traümte von Lieb’ um Liebe"

Wilhelm Müller

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Amor que amei amando o amor

amor à terra ao mar e à vida

que só de amor amando, amamos

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Amor que amei amante .- amor

amor por ti por tudo e mim

amor ardor de amor.

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Amor que ainda amo sem amar

que a tudo - à terra ao mar e à vida

amar amando amei de amor.

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em "O FRIO DOS DIAS", esg.

sábado, 4 de abril de 2009

TRÂNSITO

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Madrugada.... canto puro

as árvores respiram o ópio da noite

o frio tépido do sol em transe

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Crisálida.... insecto-tépido voa

voa nas folhas.... em transe a seiva

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E há.... o.... a.... insecto em transe

no canto puro da seiva

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À noite o ópio é puro

manhã vem cumprir

a lei das coisas

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E nasce em transe

o fogo.... o fumo

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de.... o.... a.... insecto eterno

em trânsito.

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em "O FRIO DOS DIAS"

terça-feira, 31 de março de 2009

SONETO MODERNO

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Sob a influência de variadas energias e vapores,

a cobra enrosca-se na árvore do fogo.

É um exercício adoçado pela música das nuvens

grandes espasmos de alegria sobre a terra.

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Por ali passa a ebulição dos fluidos

actor de mil anos de efervescência

bailarino das areias consumado mestre

das intuições aprendidas desde a fonte.

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Vão sobrar as cinzas e as memórias

duma constelação de viagens ao sol

também o frio imparável dum estio vindouro.

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Mas esse é o destino das cores que empalidecem

quando nasce o dia e vem o vento violento

a varrer o chão onde vivem as pedras.


em "ITINERÁRIO", ed EDIUM, 2008

quinta-feira, 26 de março de 2009

POEMA À MULHER AMADA

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Com as palavras dizemos

o que dizem as palavras.

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Mas basta um aroma da mulher amada

para dizermos o indizível.

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inédito

sábado, 21 de março de 2009

INSIGNIFICÂNCIAS

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A minha vida faz-se de pequenas coisas

que não ficarão para a história do planeta

nem do país

nem da cidade

pequenas coisas insignificantes que são apenas minhas

pequenas insignificâncias

pequenas coisas de nada

que não mudam o sentido de todas as outras grandes coisas

nem a sua universal singularidade

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a sua verdadeira dimensão de idênticas pequenas coisas

que possam ficar para a história do mundo

ou do país

ou das cidades

feitas dessas pequenas/grandes coisas

exactamente iguais às minhas.

inédito

quarta-feira, 11 de março de 2009

LAGAR DE AZEITE

















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Dizem do modesto ramo de oliveira a paz
e dizem-nos do seu ditoso fruto a luz
que iluminou as noites de reflexão dos gregos.
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Só por isto eu teria de louvar o puro azeite,
este lugar eleito, este lagar de azeite
onde a prensa arrebatava a flor dos fluídos
que dão perfil e força às veias da memória. 

Também nos dizem do primado do seu reino
de enfrentar o frio, a decrepitude, os rudes sóis
e nos proteger do estertor fatal da morte
graças à excelência dos seus delta colestróis.
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Mas mais que tudo pelo paladar, o gosto antigo
no bacalhau e noutros pratos celebrados,
na sardinha em lata como era nesse tempo,
na caldeirada, nas cavalas, nos charros alimados
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...Este poema e foto fazem parte do livro ALGARVE ONTEM

domingo, 8 de março de 2009

HOMENAGEM À MULHER

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Belo

é caminhar por entre o verde

saber que se ganha e que se perde

e ficar-se a sorrir, sempre.

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Belo

é ver cair à volta o mundo

ouvir-se o lamento do moribundo

e ficar-se a rir eternamente.

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Belo

é não pensar, não ler, fantasiar

e nas grandes noites

apenas sonhar, sonhar.

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Belo

é o grande mar, o céu azul

e o doido que ri

sem saber o que quer ou o que não quer.

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Mas o mais belo de tudo

é a mulher.

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Todo o belo que existe cabe em si.

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em POEMAS PRIMEIROS (reedição)