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segunda-feira, 3 de março de 2014

A VISTA E O OUVIDO


“...A vista e o ouvido oferecem aos homens alguma certeza, 
ou não será verdade, 
 como não cessam de contar os poetas,
que não ouvimos nem vemos seja o que seja de exacto?” 
Sócrates
 .
Para entender o que os olhos vêm, a inexactidão das coisas,
o vigor do tomilho que ateima em seduzir os lábios
que soam nas palavras as cores da utopia

é preciso uma voz que diga a brisa da frescura na planície
sem tempestades de areia e pó
a oferecer uma flauta para ler os horizontes.

Nada do que é parece ser, nem a dor que permanece
ao fim do dia no declinar das rosas
ou dos enganos transparentes.
Nem de ouvir
pela pele ressequida duma flor.
Nem de sentir perfumes de mulher sob as escadas
como parecia que era o céu.
Nem o fogo que queima a plenitude do amor.
Nada é senão o brilho ofuscante igual aos nossos olhos,
um diamante translúcido, a iluminura duma estampa antiga
que deita uma sombra sobre a sombra dos orvalhos.
. 
em "Diccionário de Citações", a publicar

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

LEMBRANÇAS DA NEVE NO ALGARVE

.POEMETO
.
A ave
.
e a nave
-
 ..
o leve e o breve
.
cristal de neve
.
...............................................em "Poemetos 1", esgotado
.
.
Há 60 anos, nesse mês de Fevereiro, nevou no Algarve inteiro!

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Recantos Ocultos


 -
Também a casa tem os seus recantos ocultos
que se encolhem em umbrais austeros,
numa obscuridade sinuosa, impermeável.
 .
São a matéria excedente do latejar do sangue,
uma fogueira extinta pelo seu próprio fumo
caída sobre a cinza de magoadas flores.
 .
Não impedem ao tempo o seu galgar sereno
fechado na missão de arrefecer as cinzas
para a dispersão programada dos vestígios. 
 .
Estão ali porque completam a função do lar
os seus esteios multicolores, o seu espectro,
uma luta verdadeira entre as trevas e a luz.
 .
em "Causas de Habituação", a publicar

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

A NOSSA CASA


A nossa casa é um lugar ao vento, mas buscamos
o absoluto, a bárbara verdade duma onda sobre a praia.
 .
Tudo nos pertence porque guardamos na memória
os restos do apego às coisas que tivemos, os gestos
de gratidão que vimos no coração dos dias violentos.
 .
Esta época não é a nossa. Subverte os conceitos
do ânimo, os desígnios legítimos de plenitude
 .
Mas por isso ainda somos a centelha que arde devagar
na paisagem estreita de árvores estóicas, em momentos
de tempestade, na consciência das opções sublevadas.
.
em Transparências, ed AJEA

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

O FIM DE MIM


O fim de mim
terá de ser assim:

os braços cravados numa cruz,
a cabeça vergada ao evidente
como ao evidente vergou
a cabeça de Jesus

e um lume lento aceso e eterno
nos miolos
devorados
.
pelo fogo deste inferno.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

A PALAVRA



A palavra encerra outra palavra
ou outras cores de outras palavras

substância e luz herdeira
dum prisma em vidro
entreaberto a um olhar plural.


Exemplifica os campos férteis
onde crescem as flores do espírito
o gosto exótico pelos frutos
multiplicados pelo prisma.


A palavra é um corpo vivo
modelado para a busca infinda
duma nova essência


uma cor primaveril
adolescente
que só desenha os olhos
de quem sabe olhar.