,

,

sexta-feira, 3 de julho de 2009

HOMENAGEM AOS NATURISTAS

.

Acabo de ser gentilmente convidado para o jantar comemorativo do 6º Aniversário do Club Naturista do Algarve, que tem lugar no dia 4 de Julho, no restaurante "O Cangalho", em Lagos. Na impossibilidade de estar presente, quero, no entanto, prestar a minha homenagem ao Grupo, com um poema.

-

POEMA AO NATURISMO

.

A paisagem dá forma à nudez dos corpos

o equilíbrio natural dos tons harmónicos

na luz morna que desce sobre a terra.

.

É a aliança virtuosa entre o ar e a água

o recorte instintivo dos troncos das árvores

expondo as suas folhas e os seus frutos.

,

Inédito


segunda-feira, 29 de junho de 2009

TUDO COMO DANTES

.

Como dantes

radiantes

esfuziantes

.

os elefantes.

.

Opíparas

elegantes

.

as amantes.

.

.

E os bem falantes

meliantes

traficantes

.

como dantes

-

quartel general

em Abrantes.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

DESFRUTAR O AR

-

Desfruta-o ar.o vento.o fogo.

-

Arde devagar.

-

-

Engana a tua sina

-

com o teu errar.

.

inédito


sábado, 20 de junho de 2009

MEU CÉREBRO

-

Meu cérebro move-se a dois tempos:

o tempo raso das esperas,

das esferas paradas sobre um vidro

-

e o tempo dos éteres, dos vapores

que dão um frenesim à vida

-

uma esfera lisa

vítrea

que enrola no meu ser

os mil tempos da face duma roda.


em ARABESCOS, colecção Litoral, 2008, esg

segunda-feira, 15 de junho de 2009

POEMA À PLENITUDE

.

Para trilhar os caminhos que levam à plenitude

escolhem-se as veredas mais ímpias, sem flores

ou flores gastas pelo faro dos pássaros

.

porque a pura ciência dos rios se constrói

por entre as pedras escorregadias, lisas

das margens, não pela geografia das cores

o brilho intransigente das primaveras

-

2007

quarta-feira, 10 de junho de 2009

SONETO CLÁSSICO

.
Subi um dia pela tarde aquele monte
donde as coisas do mundo que habitamos
fazem crer-nos, de longe, que julgamos
ver de perto, ao longe, o horizonte.

Alta serra de luz cegando a fronte,
quando ao ponto mais alto nos chegamos
das coisas desse mundo que avistamos
já não vemos se vemos lago ou fonte.

E do alto da serra contemplei
em plena luz, a luz que iluminava
o aparente sossego que reinava.

Desci depois do ponto onde cheguei,
mas só quando na terra descansei
é que entendi que a vista me enganava.
.

domingo, 31 de maio de 2009

POEMA AO MEU ESPAÇO

-

Cerca-me o espaço que não vejo

a curvatura relativista

de meus olhos, o horizonte

que entra a fundo no meu corpo,

a claridade das formas

que se incendeiam.

.

O meu espaço foge

aos tensores de Riemanm

alarga-se a alaga-se

num lago próximo.

.

Desconhece as leis da física,

permanece à luz

e pertence aos artifícios da luz,

como silhueta duma árvore

respirando a interior volúpia

das águas móveis.

.

terça-feira, 26 de maio de 2009

TAMBÉM HÁ UMA RUA SEM NOME

-

Também há uma rua sem nome, na cidade:

um caminho obscuro, em laje de basalto

cheia de perplexidades e redundâncias,

com um arco-íris num dia sem sol,

.

um caule tardio na incerteza dum pátio

ou a cicatriz duma lâmpada no escuro

das casas disformes, desfeitas em barro.

.

É uma rua estreita habitada por sombras

de fogos extintos, numa transparência antiga

própria dos répteis que abalaram o planeta.

.

Não tem nome nem crisântemos às janelas,

é uma rota obstruída pelas ladeiras do sal

ponto de referência, aliás, da tranquilidade.

.

inédito

sexta-feira, 1 de maio de 2009

POEMA EM MAIO

.
Com seus tambores fogo e cinza
o mel da manhã menino
de luz e sombra.
.
Rosto lesto rosto
de alísio ágil cio.
.
O mês em que nasci.
.
A bruma e o sol.
.
O sul nascente.
.
o mar.

.
em "A Palavras em Duas", 1983, esg.

sábado, 18 de abril de 2009

POEMA CONTRA

. .

Contra que efeitos visuais auditivos sensoriais difusos

subsequentemente traduzidos por exemplo pelo arrière-goût

dum bourgogne ou deste colares em sua garrafa verde garrafa

tão rigorosamente cheia de cognições.

.

Contra que estados de alma – o ópio a televisão do drama

a viragem no barranco eléctrico amarelo do Carmo.

.

Contra que imagens gestos molduras vernizes – a cara do sujeito

o timbre da voz que arrepia os tons armazenados na paleta

dos ossos sobre os quais ando como jogo me transmito e passo.

,

Contra que filosofias aritméticas métodos medidas lógicas

se só avanço a golpes de loucura a arrombamentos de portas

a viagens pelo mar violento do pacífico

debaixo da grande abóbada negra pejada de estrelas

donde caiem belíssimas colunas gregas

e esta incansável necessidade de repensar

o homem o seu destino a vida (havida) e o vírus.

.

Contra que tempo ou época ou brisa e suas reverberações

de azul nuvens poeira fumo níveis de convencional mediania

geralmente aceite pela mediania realmente convencional

abcesso abjecto e alegre.

,

Contra que influências por irradiação lume luzes

visíveis ou invisíveis induções electromagnéticas

parece que apenas desprendidas dum olhar logo nos aprisiona

e sobe pelas pernas acima sob a forma suprema

dum lagarto ao sol.

-

Contra que perspectivas palco décor plongée –

visto de baixo voo visto de cima sou um monte de ossos

uma máquina de fazer caca tão ordeiramente organizada

que rebento de gozo pelos poros dos sangue.

.

Contra que compostura de substrato cultural –

não nego o efeito abomino a inerência a preservação

o uso e abuso das cores da bandeira a caixa de lápis-de-cor

que cheira a ranço à segunda vez dum english breakfast.

.

Contra que fenomelogia de cristais tão cristalinamente

geométrica tão repentinamente equação

tão solene e atulhada de redomas catedrais europas flor e fruto

tim-tim por tim-tim.

.

Contra que mistérios que só são mistério para quem conta

pelos dedos como a menina mulher naquela manhã lilás

explodida através dum relâmpago visível pelos séculos

dos séculos até à noite de absinto mãe da morte previsível

da espécie

.

ora ora...

.

em ANTOLOGIA ANTI-FLORAL, Ed. BARLAVENTO

segunda-feira, 13 de abril de 2009

POEMA ÀS FLORES

.

(...)

.


Ah..........inundemos o deserto

de flores

do deserto!

-

em 37 Poemas (o meu primeiro livro) esg.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

POEMA AO AMOR

.

"Ich traümte von Lieb’ um Liebe"

Wilhelm Müller

-

Amor que amei amando o amor

amor à terra ao mar e à vida

que só de amor amando, amamos

-

Amor que amei amante .- amor

amor por ti por tudo e mim

amor ardor de amor.

.

Amor que ainda amo sem amar

que a tudo - à terra ao mar e à vida

amar amando amei de amor.

.

em "O FRIO DOS DIAS", esg.

sábado, 4 de abril de 2009

TRÂNSITO

-

Madrugada.... canto puro

as árvores respiram o ópio da noite

o frio tépido do sol em transe

-

Crisálida.... insecto-tépido voa

voa nas folhas.... em transe a seiva

-

E há.... o.... a.... insecto em transe

no canto puro da seiva

-

À noite o ópio é puro

manhã vem cumprir

a lei das coisas

-

E nasce em transe

o fogo.... o fumo

-

de.... o.... a.... insecto eterno

em trânsito.

-

em "O FRIO DOS DIAS"

terça-feira, 31 de março de 2009

SONETO MODERNO

.

Sob a influência de variadas energias e vapores,

a cobra enrosca-se na árvore do fogo.

É um exercício adoçado pela música das nuvens

grandes espasmos de alegria sobre a terra.

.

Por ali passa a ebulição dos fluidos

actor de mil anos de efervescência

bailarino das areias consumado mestre

das intuições aprendidas desde a fonte.

.

Vão sobrar as cinzas e as memórias

duma constelação de viagens ao sol

também o frio imparável dum estio vindouro.

.

Mas esse é o destino das cores que empalidecem

quando nasce o dia e vem o vento violento

a varrer o chão onde vivem as pedras.


em "ITINERÁRIO", ed EDIUM, 2008

quinta-feira, 26 de março de 2009

POEMA À MULHER AMADA

-

Com as palavras dizemos

o que dizem as palavras.

-

Mas basta um aroma da mulher amada

para dizermos o indizível.

.

inédito