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sábado, 21 de dezembro de 2013

RETÁBULO - NATAL dos sem-abrigo





Naquela noite fazia frio fazia pena
ver almas despedaçadas deitadas corpos entrouxados
dispersos nas calçadas luzidias do passeio das ruas.

Caía uma névoa fina que simulava chuva punhais
de raiva e resignação ou antes uma levada de mágoa
de murmúrios sem data sem fumo sem restos de cio
perdidos num mar de pedras nas calçadas da rua.

Era uma noite de claustros tambores rufando clamando
os clamores da vida a náusea descrente na boca sofrida
o granito fundido já duro das lutas perdidas
pisado nos ossos nos ombros nos olhos que olham
as coisas de fora nas coisas de dentro
e as noites nos dias e os búzios na praia sem vento
soprando as pedras do passeio da rua.

Doía a quem doía não fora a noite uma noite
de aprazimento em todas as aldeias da cidade
tempo de alegrias acepipes farturas alvarinho
em casas abastadas sobranceiras aos passeios da rua -
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o mais vago grave desígnio dum oráculo de plenitude
na inocência das crianças nas crenças na sentença
dos mecanismos que levam ao enternecimento
por ver a chuva a cair sobre corpos alheios
prostrados enrodilhados no manto do passeio das ruas.
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 em 4 POEMAS DE NATAL, 2013

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

POEMA DE NATAL (II)



A ideia de Natal é uma ideia em construção
uma casa comum de barro generoso
feito do sangue e da probabilidade duma cidade
cheia de luz, emergindo de obscuro impulso,
um promontório temível que despedaça as águas
impelidas por vento que vem do chão.

Evocar o Natal é uma ideia de harmonia
entre os naturais irmãos da terra,
o decurso duma semente que floresce
ao calor dum gesto sempre inacabado.  

Façamo-lo hoje ao cair da noite
para celebrar a vida, numa ideia de paz,
para que o barro floresça em paz até ao fim.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

SEM TÍTULO

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É um dos quadros da minha exposição "As Cores do Poema"
e miniatura do livro do mesmo nome.
* O livro contém as 16 miniaturas da exposição.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

POEMA EM NOVEMBRO

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POEMA EM NOVEMBRO 
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a luz breve escoando os restos do vidro
a luz leve moendo a cânfora dos olhos
a luz neve abrindo o pântano do sol

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

UM CAMINHO


Onde inventar um caminho legítimo
para o êxodo, uma porta entreaberta
respirando o ar que vem da terra?

Os muros da cidade sustentam-se
destas incertezas, destas cortinas
de fogo, este balbuciar de cansaços
imperfeitos, tranquilos como fumo
esparso, dispersando vozes alheias.

Não nos inclina a dureza das pedras,
a sua fiel sabedoria de intransigências.

Mas tarde é inútil, para fingir exílios.

Hoje já é ontem, para o fim indiciado.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

PARDALITO

Quanto, pardalito
comungas do meu tempo!

És meu irmão no espaço duma vida,
a minha e a tua vida,
no tempo que é o nosso.

Por isso somos irmãos irrepetíveis
no espaço do tempo
que o tempo dá às nossas vidas.

Por isso, irmão,
de todos os que vivem o espaço que é o nosso,
eu te pertenço como me pertences
e todos nos pertencem

porque a todos pertencemos
à terra ao céu e ao vento
do tempo e do espaço do tempo
irrepetível
que é nosso!


clicar youtube para écran inteiro
O poema que deu origem a este vídeo 
faz parte do meu mais recente livro "As Noites e os Dias".