,

,

terça-feira, 24 de abril de 2012

ABRIL DO NOSSO DESCONTENTAMENTO


Por todas as razões o país afunda-se
pela míngua
pela sorte dos sem sorte
pela luz que se afoga ao fundo do tempo
pelo frio
pela velocidade com que os sedimentos
apenas se diluem na mágoa
pelas histórias repetida
da história
pelos números
pelas letras
por um anti-ciclone
a arredar-nos dos restos do mundo
e principalmente por um ciclone numa seara verde
varrida pelo amarelo

sábado, 21 de abril de 2012

COM O TEMPO


 .
Com o tempo
um delírio impoluto cresce em nossos olhos.
 .
Aprendemos a distinguir
um sorriso, o riso austero, o choro da criança
 .
o sal que dá rigor às nossas vidas
ou rói o vigor dos ossos
que nos trazem ainda vertical
.
como sãos os exercícios primaveris de palavras
nunca ditas
.
como que amarelecemos o tempo.

sábado, 14 de abril de 2012

ANTOLOGIA INVERNO

Está publicada a Antologia de Inverno "Acordando Sonhos", 
ed. Pastelaria Studios.
Eis a minha participação: 
























e, no Brasil e Argentina aqui


segunda-feira, 9 de abril de 2012

FONTE DE SABERES


Fonte de saberes é esta rua.
 .
A pedra nua.
 ,
O umbral da porta velha
de ruídos e (de)lírios.
 .
O lancil direito à luz
onde as sombras se afogam
numa sombra
 .
a pronunciar um adeus
aos lírios e aos ruídos.

inédito

segunda-feira, 2 de abril de 2012

NEM SEMPRE É POSSÍVEL


 .
Nem sempre nos é possível encontrar uma romã      
quando se procura uma sombra junto à fonte,
um sentido para a nossa sede urgente, uma luz dízima
para um esquecimento à beira da memória.
 .
Diremos a evidência dos lugares que nos olham
com a indiferente irreverência de claustros
imunes às feições do tempo, seus inquilinos frágeis
– por isso mesmo merecedores dum longo enlace –
ou a uma gota de água para a rede das raízes
que esperam o amante adormecido.
 .
A vida nega-nos a veleidade dum equilíbrio assente
na leveza verdadeira de horizontes claros
 .
e assim nos alimentamos da utopia da visão desnuda
de singulares cometimentos, num quadro improvável
à beira duma fonte onde despontam as romãs
a sede urgente que nunca satisfaz as nossas bocas.
.
Leia também o meu mais recente conto aqui

sábado, 24 de março de 2012

ESTE DIA

.
Este dia está infinitamente morto,
sobre ele pairam véus de bruma
diluídos num ludíbrio de sombras,
embora transparente de memórias
que acendem outras memórias.
.
-
Este dia está infinitamente acabado
e no entanto soa como um tímpano,
um eco de outros ecos excessivos,
para murmurar um outro ciclo
que traga a claridade dum novo além.
 .
* Leia também o meu mais recente conto (curto) em CONTOS DE BARÃO aqui

sexta-feira, 9 de março de 2012

TRAJECTO

O TRAJECTO

.

Os rios foram talhados para correr as margens

arrancadas à terra. É esse o trajecto que abarcamos

sob os pés - o trajecto que habitamos nas palavras:

.

a luz que escoa a bruma embranquecida da memória.

.

Corremos nos caminhos da água que vem nos rios

a nossa própria memória embranquecida sob os pés.

.

E talhamos as margens ao tributo de vitoriar ao sol

a luz que acende o correr do rio que nos habita.

.

inédito

.

veja também O Baile do Marítimo aqui

sábado, 3 de março de 2012

MANHÃS DISTANTES

.

Ah manhãs distantes

da minha infância

como vos lembro e relembro

e choro e me entristeço

-

Aqui

apenas me apareço

espectador dos outros e de mim

barco de rumo incerto

ao provir ou ao fim

.

Leia também o conto "Carnaval", aqui

domingo, 26 de fevereiro de 2012

SEM TÍTULO (5)

.

Um dia tenho que começar a organizar-me

eu que nunca me organizei em coisa nenhuma

.

porque nada me carece ser organizado

e nenhuma coisa me pediu para ser organizada

.

a não ser a teia de entender o que nada sabemos

para o modo e o método de simplesmente ignorar.

.

Mas o tempo urge por debaixo dos pés onde há

um silêncio virtual preso aos rumores do vento.

.

Tenho primeiro de organizar os rumores do vento.

,

inédito